Resolução de Conjuntura e Tática Internacional do IX ENAPS
Encontro Nacional da Ação Popular Socialista – APS/PSOLSão Paulo, 30 de outubro a 2 de novembro de 2025
Apresentação
- A profunda crise do capitalismo continua seu trajeto, após a pandemia da Covid- 19, com o aprofundamento da exploração do capital sobre o trabalho, destruição ambiental, concentração de renda e riqueza, parasitismo rentista, incremento da dominação dos países do centro imperialista sobre os países dependentes da periferia e o aumento da pobreza, da miséria e da fome.
- Aprofundou também as opressões de raça, de etnia e de gênero contra as mulheres e LGBTQIA+, a xenofobia, violência, desigualdades, discriminações, exclusões e opressões as mais diversas. Há um agravamento das desigualdades sociais de todo tipo e a concentração de riqueza enriqueceu ainda mais os bilionários e multimilionários em diversos países como EUA ou China, Brasil ou Nigéria, Israel ou países árabes, Ucrânia ou Rússia etc.
- Após o pico da crise de 2019/2021, a mais profunda depressão econômica desde a crise de 1929 e o pior momento desde a crise de 2008, esta agora volta a se agravar com as turbulências provocadas pelas medidas protecionistas do segundo mandato de Trump – impulsionando a bipolarização interimperialista. São partes da crise estrutural do capitalismo, iniciada na década de 1970 e que não foi superada.
A crise econômica estrutural e a situação internacional
4. Difusamente pelos continentes, regiões e países, de modo desigual e combinado, está presente um jogo de idas e vindas entre a ofensiva neoliberal e conservadora e o crescimento de partidos de extrema direita. Por outro lado, a resistência popular, na luta direta e/ou eleitoral, mesmo não tendo o mesmo vigor alcançado entre 2011 e 2014, continua viva.
5. Tudo isso tem a ver com a situação do Brasil. Tanto as medidas adotadas pelo governo Temer como as de Bolsonaro estavam inseridas no receituário neoliberal clássico, que é aplicado em diversos países do mundo. A divisão internacional do trabalho e a internacionalização da crise e da resistência são fenômenos que condicionam as contradições e que precisam ser estudados por todos os que se reivindicam revolucionários e, portanto, internacionalistas.
6. Com o terceiro mandato do presidente Lula da Silva, seu neodesenvolvimentismo continua sem romper com o neoliberalismo e vem aprofundando a receita neoliberal. No fundamental, fortalece o grande capital nacional e internacional, ampliando a dependência. Na esteira dessa política, realiza ajustes antipopulares, mesmo reduzindo a intensidade e com medidas compensatórias, e mantém a destruição ambiental.
7. Mas não há como entender bem, por exemplo, a profundidade da crise econômica, social e política no Brasil sem o estudo da situação mundial e suas particularidades nacionais importantes. Mais do que nunca, a luta da classe trabalhadora e dos explorados tem contornos mundiais. O internacionalismo pressupõe a solidariedade internacional entre os trabalhadores e demais setores oprimidos, mas a simples solidariedade não significa ser internacionalista: precisamos, além de fazer a análise sob a ótica internacional, trabalhar para construir ações e articulações conjuntas.
Breve retrospectiva desde 2012
8. No V ENAPS (2012) nós já dizíamos que “Vivemos um período de Crise Estrutural crônica do capital em nível mundial, que é um processo de crise múltipla: econômica, social, ambiental, energética e alimentar, com fortes componentes políticos e culturais. Hoje, ela se situa principalmente nos centros capitalistas, como os EUA e a Europa, mas atinge todo o planeta. Não há sinais de saída ‘virtuosa’. Observamos o enfraquecimento econômico relativo dos EUA como centro imperialista unipolar e a emergência da China”.
9. “Neste período, o capital realizou muitas ações, usou de vários artifícios e teve várias “oportunidades” para acumular e tentar superar a crise: o rompimento do Acordo de Breton Woods; a ofensiva neoliberal; o keynesianismo industrial militar; a revolução tecnocientífica; a entrada do capital em novos setores econômicos e regiões geográficas do mundo; maior ataque à natureza com destruição ambiental; fim dos regimes burocráticos na URSS e no Leste Europeu; e a conversão capitalista da China. Mas o resultado foi o aprofundamento da crise”. A citação precedente, parte de nosso V ENAPS, fala do pano de fundo, da crise mais prolongada, mais ampla, que está na base da situação atual, pois é uma crise que “tem características diferentes daquela de 1929. Não é uma ‘simples’ crise cíclica. Há uma crise econômica estrutural, crônica e sem uma saída efetiva identificada. Uma crise que, desde o final da década de 60 e início dos 70, está vinculada à queda da taxa de lucros, cuja tendência histórica também já havia sido identificada por Marx”.
10. Na resolução de nossa Conferência Nacional (março de 2013) reafirmamos que “nada disso evitou o agravamento da crise estrutural do capitalismo. Todas as medidas tomadas só adiaram qualquer resolução estável dos impasses e geraram o agravamento das tensões sociais que vão se expandindo por todos os continentes, inclusive com fortes possibilidades de novas guerras regionais”.
11. “Continuam os ataques ao povo trabalhador de todo o mundo. A democracia representativa burguesa vem sendo substituída por um simulacro de democracia totalmente subordinado aos interesses do capital, especialmente de sua fração financeira. Greves, paralisações, desemprego, violência, suicídios vão se espalhando. Os trabalhadores perdem direitos e os cidadãos perdem liberdade”. “A resistência cresce, mas a fragmentação da esquerda e as diversas formas de contenção das organizações populares geram impasses para o desenvolvimento das lutas na Europa.”
12. Nas resoluções do VI ENAPS (agosto de 2015) afirmamos que “Dentro desse quadro de crise, o mundo passa por uma reconfiguração imperialista – tendo como pano de fundo o atual estágio da crise estrutural do capital – que é consequência da quebra da unipolaridade imperialista baseada nos EUA. De um lado, vemos a ascensão da China numa aliança estratégica com a Rússia, e se articulando com outros estados. Por outro lado, os EUA vivem um processo de enfraquecimento econômico e vinham buscando consolidar um bloco com a Europa. Esta, por seu turno, também vive uma profunda crise e dificuldades para manter o grau de unidade existente”, como vimos no caso da crise na Grécia e especialmente com referendum do Brexit de junho de 2016.
13. Hoje, os principais indicadores apontam para a continuidade de um PIB mundial em torno de 3% e uma tendência da queda da taxa de lucros no processo produtivo. A solução encontrada pela burguesia não chega a ser exatamente uma novidade: como sempre, descarrega sobre a classe trabalhadora o ônus da crise que o capital engendrou. Na prática, isso significa a redução de políticas públicas e mais privatizações, ataques aos direitos sociais conquistados a duras penas, incremento do banditismo do capital financeiro através do mecanismo das dívidas públicas, entre outras medidas chamadas de “austeridade”.
14. Essas “soluções” estão sendo aplicadas na Europa, na África, na Ásia, na América do Norte, na América Latina e na Oceania. Ou seja, guardadas as inevitáveis diferenças de ritmo e intensidade, são as medidas neoliberais adotadas pelo capital em nível mundial, em todos os continentes. Os ataques aos direitos sociais, até então limitados aos países periféricos, vêm atingindo todos os países capitalistas, incluindo os mais desenvolvidos. Estamos falando de potências mundiais como Alemanha, França, Itália, Inglaterra, Japão e o próprio bastião do imperialismo histórico mundial, os EUA.
15. Evidente que esses ataques implicaram modificações na esfera da política. Como a primeira eleição de Donald Trump nos EUA e o avanço da direita e da extrema-direita no continente europeu, alimentando e sendo retroalimentado pelo Brexit e pela crise dos refugiados.
16. Outra característica do período é o aumento constante da concentração da riqueza mundial. Os 1% mais ricos (cerca de 8 milhões de pessoas) concentram cerca de 45% de toda a riqueza mundial produzida naquele ano. Na outra ponta desse quadro está a resistência do povo e das classes trabalhadoras do mundo.
17. As resoluções do VIII ENAPS (abril de 2022), no fundamental, também mostraram ser corretas na análise da crise estrutural do capitalismo e da bipolarização interimperialista, assim como de suas principais repercussões nos âmbitos nacionais e regionais.
18. Portanto, em termos de período conjuntural de médio e longo prazos, entendemos bem o processo da crise e seu desenvolvimento. Entretanto, muitas coisas novas aconteceram desde então. Partindo dessa base consistente apresentamos aqui uma atualização.
Elementos principais da atual situação
19. Os elementos que compõem a conjuntura internacional atual são fundamentais para entendermos o impacto que essas dinâmicas têm sobre o nosso futuro. O cenário se caracteriza pelo prolongamento e exacerbação da crise estrutural múltipla do capitalismo, uma realidade que se iniciou na turbulenta década de 1970. Esse contexto nos leva a refletir sobre as implicações da tecnologia que, embora tenha o potencial de gerar soluções inovadoras e democratizantes, também pode ser uma arma de controle e opressão promovidos pelas classes, elites e potências dominantes.
20. A bipolarização interimperialista se agravou desde o primeiro mandato de Trump, evoluindo sob a administração Biden e agora com a volta de Trump 2. Esse fenômeno não se resume apenas a uma disputa política, mas se estende a uma guerra pela vanguarda tecnológica, em que nações e corporações monopolistas se enfrentam, potencializando suas moedas e suas posições no comércio internacional.
21. Além disso, enfrentamos um aprofundamento da crise ambiental, que se manifesta na urgência climática do aquecimento global e na destruição da biodiversidade. O fracasso das abordagens ecocapitalistas para solucionar essas questões evidencia a necessidade de mudanças profundas. É imperativo que a tecnologia não seja vista apenas como uma ferramenta, mas como um aliado na construção de um futuro sustentável – que respeite os limites do nosso planeta – o que só será possível num projeto ecossocialista.
22. Ao mesmo tempo, o capitalismo continua lançando suas investidas contra as trabalhadoras e os trabalhadores em diversas frentes, seja de maneira liberal ou conservadora – ou numa articulação entre neoliberalismo e conservadorismo. O autoritarismo da extrema-direita, especialmente as forças neofascistas, age por fora ou por dentro dos governos, intensificando ataques que afetam especialmente os setores oprimidos por gênero, raça, etnia e a população LGBTQIA+. Essa opressão não é apenas uma questão local. É um fenômeno internacional.
23. A guerra pelo domínio tecnológico e a ascensão das grandes empresas de tecnologia estão criando um cenário de crescente perigo, especialmente com a aliança dessas corporações com a extrema-direita. Isso porque a tecnologia, que poderia ser uma ponte para o desenvolvimento humano, também é um campo de batalha ideológico e estratégico e de disputa de hegemonia.
24. Contemporaneamente, os conflitos militares “localizados” e “regionalizados” se intensificam, contribuindo para uma corrida armamentista que provoca perturbações e inquietações globais. Esses conflitos, que são alimentados por interesses econômicos, políticos e geopolíticos, ressaltam a interconexão entre as crises locais e a disputa interimperialista.
25. Mesmo diante de um quadro tão desafiador, a resistência popular continua viva e difusa em todos os continentes. Essa mobilização, embora marcada pela falta de unificação e fragilidade de direções políticas revolucionárias, é um sinal de esperança. As vozes que ecoam em protestos e manifestações insistem em nos lembrar que a luta por um futuro mais justo, igualitário e socialista é possível.
O desenvolvimento da crise estrutural e prolongada do capitalismo
26. Os dois momentos mais fortes da crise estrutural e prolongada do capitalismo no século XXI apareceram especialmente a partir do pico da crise em 2007/2008, mostrando uma profunda crise do neoliberalismo, e durante a pandemia (2019-2022). A crise do neoliberalismo foi uma das respostas principais (ao lado da financeirização fictícia e do aprofundamento da exportação de capitais) do capital e seus estados burgueses para tentar contornar a crise a partir da década de 1970.
27. Para compreender a essência da conjuntura é preciso um esforço para analisar as tendências e avanços das contradições do capital. Não basta pontuar indicadores conjunturais, episódicos e aparentes, das mudanças de governos, táticas dos estados ou marketing das empresas. É preciso compreender as contradições do capital em suas relações com o trabalho, a natureza, as diversas frações econômicas e políticas dos exploradores e explorados e os conflitos interestatais.
28. No período histórico de derrotas políticas e ideológicas que teve curso após a queda dos regimes burocráticos do Leste Europeu, com a hegemonia burguesa em nível mundial e a busca de restauração das bases acumulativas do capital, foi criado um clima favorável para o sistema encontrar novos caminhos para sua expansão, como se fosse um processo quase natural e infinito. Ao mesmo tempo, muitos celebraram o neoliberalismo, a globalização, a ideologia pós-modernista e a fragmentação da classe trabalhadora, prejudicando nossa luta.
29. Mas, contrariando o oba-oba da burguesia, suas elites e suas mídias, a economia capitalista tem tido sua capacidade de sobrevivência dependente da prevalência da sua dimensão destrutiva. Isso leva a aprofundar, cada vez mais, a deterioração das condições de vida e trabalho das populações e destruição da natureza para “estabilizar” a continuidade à sua reprodução. Por outro lado, as possibilidades de gerar certos aspectos sociais positivos, fruto da expansão e consolidação do capitalismo do século XIX até a década de 1970, foram reduzidas extraordinariamente.
30. A lógica objetiva do capital se impõe, finalmente, em toda sua integridade destrutiva e crueza; por isso mesmo, faz emergir resistências e respostas em todas as partes do mundo. Mesmo sendo de forma difusa, explosiva, contraditória, limitada ou ainda influenciada pelo pensamento liberal e falsas soluções para a saída da crise, o que importa saber e considerar é que as massas não deixam de resistir e sempre estão em movimento.
31. Esse é o ponto de partida para uma análise que compreenda a crise e suas implicações de modo rigoroso para a definição de táticas e estratégias para o novo período. Para definir também como iremos nos organizar enquanto socialistas e influir de forma substantiva na luta do povo, da classe trabalhadora, da juventude, das mulheres, dos negros, dos indígenas, da população LGBTQIA+. Enfim, de todos os oprimidos e explorados dessa sociedade.
32. Há variadas ilusões sobre a natureza da crise que levam enganos para a classe trabalhadora, o que devemos combater de forma rigorosa. A crise atual do capitalismo não é uma simples crise financeira ou creditícia; tampouco se reduz a uma crise cíclica própria de sua forma clássica, ou resultante de um período de desregulação, para logo, dentro de um determinado tempo, se recompor e retomar seus níveis normais de expansão e crescimento. Da mesma maneira, não é apenas uma crise de superprodução de mercadorias ou sobreacumulação de capitais, nem uma simples disfunção do sistema. Não é apenas resultado de uma exagerada aplicação de políticas neoliberais por parte dos governos de direita ou de “esquerda” social-liberal.
A tendência da queda da taxa de lucro e atual crise econômica estrutural
33. Como vimos, a crise atual não é uma “simples” crise cíclica como a de 1929. É uma crise estrutural que está vinculada à queda da taxa de lucros no processo produtivo, cuja tendência histórica já havia sido identificada por Marx e Lenin.
34. Duas grandes pressões sobre a taxa de lucros forçam sua queda tendencial. Uma é intrínseca à lógica da economia e da competição entre os capitalistas, que força o aumento do capital fixo (máquinas e tecnologia) e a diminuição de investimentos em capital variável (a força de trabalho), através do salário. Essa é uma contradição dialética insolúvel pelo capitalismo: o capitalista precisa aumentar sua produtividade e investir em maquinário mais produtivo para competir no mercado. Assim, diminui a quantidade de trabalhadores explorados e seus custos em pagamentos de salários. Mas, é a mais-valia produzida pelos trabalhadores a principal fonte de lucro. Menos trabalhadores pode significar mais produtividade, mas também, ao mesmo tempo, relativamente, uma mais- valia menor e uma menor taxa lucro.
35. Outra pressão sobre o lucro é também intrínseca ao capitalismo, mas não puramente “econômica”, pois diz respeito ao sujeito humano trabalhador que luta, mesmo que de modo economicista ou reformista, por melhores salários, condições de vida e trabalho, por mais políticas públicas no seu interesse etc. E isso significa, do ponto de vista econômico, disputar parte do excedente da produção que gerava mais-valia e lucro. Então, as lutas e as conquistas de trabalhadores e trabalhadoras significam menos lucro para os capitalistas.
36. Tudo isso vai gerando uma tendência histórica de queda da taxa de lucro, e não há capitalismo sem lucro. Mas, nem por isso o capitalismo vai acabar espontaneamente. O capitalista tem margem de ação, evidentemente. Pode fazer concessões econômicas e políticas para manter a hegemonia, para construir consensos, para diminuir o elemento coercitivo intrínseco à sua dominação, em prol de mais estabilidade política para a sua exploração econômica e a realização de seus lucros.
37. Mas isso tem limites. Já dizia Gramsci que, se a hegemonia é política e cultural, também é econômica. A hegemonia não pode deixar de se basear no controle dos núcleos decisivos da produção econômica. E não se pode pensar em hegemonia capitalista burguesa sem lucro garantido para essa classe. O Estado do Bem-estar Social (EBES) foi a concessão máxima que a burguesia pôde fazer para garantir sua hegemonia política, ideológica, econômica e cultural, pois permitiu uma melhoria das condições de vida e a ampliação do consumo de uma parcela dos trabalhadores. Mas, esse processo também permitiu, até certo ponto e momento, dialeticamente, via aumento do mercado consumidor, um aumento da produção e a realização da mais-valia e do lucro.
38. Até aqui, o limite do EBES foi a crise iniciada entre o final da década de 1960 e início de 70. Essas concessões foram fruto da luta dos trabalhadores e também da necessidade de a burguesia tentar responder à anarquia intrínseca do capitalismo. A burguesia teve que tomar medidas que não foram fruto de sua vontade absoluta. O estado, assim, apesar de continuar sendo um estado de classe burguês, foi forçado a incorporar elementos que não são propriamente nascidos de um DNA burguês. Como políticas sociais públicas, regulação da economia e das relações entre capital e trabalho, e as estatizações.
A ofensiva do capital contra o trabalho
39. Entretanto, o limite do Estado de Bem-Estar Social chegou com a crise iniciada nos anos 1970. E, não podendo mais fazer concessões, a burguesia partiu para o contra-ataque. Partiu para tirar direitos das trabalhadoras e trabalhadores.
40. Uma das maneiras do capital enfrentar a tendência da queda da taxa de lucros é a monopolização, já identificada como característica essencial do imperialismo, desde Lênin. O monopólio permite compensar a queda relativa (percentual) da taxa de lucro com o aumento ou manutenção quantitativa do lucro. Também permite a diminuição da concorrência no mercado e, com isso, maior controle relativo sobre preços de produtos vendidos no mercado e matérias primas compradas. Monopólio significa continuidade do processo de incorporações e fusões de empresas, não somente em escala nacional, mas também em escala global, via transnacionalização. As crises servem para isso também. Sobrevivem os mais fortes que engolem os mais fracos. Crise significa, como consequência, maior concentração de capital.
41. Mas, na crise dos anos 70, para que isso pudesse avançar, era necessário que existissem leis e regras que facilitassem esse processo. Era preciso quebrar barreiras de estados nacionais. Era preciso abrir espaço na propriedade estatizada. Era preciso implementar políticas neoliberais. Era preciso financeirizar ainda mais a economia. Era preciso aprofundar a exportação de capitais para lugares onde as taxas de lucro fossem maiores. E realizar uma nova revolução tecnocientífica para recuperar as taxas de lucro das empresas e das potências mais fortes. Era preciso criar empresas hipermonopolistas.
O neoliberalismo e suas características
42. Como foi visto acima, a financeirização da economia e o neoliberalismo surgem, assim, como os primeiros remédios para a crise estrutural e múltipla do capitalismo. Privatizações abrindo espaço para o lucro capitalista onde havia estatizações. Quebra de políticas públicas para reduzir as despesas do estado com o povo trabalhador. Quebra de direitos sociais inscritos no estado para diminuir o custo da força de trabalho. Enfraquecimento da capacidade de negociação dos trabalhadores na disputa de excedente com o patronato, através do aumento do desemprego para enfraquecer os sindicatos. Mas, isso também diminui o mercado consumidor interno a esses países, o que também limita a produção, o consumo e o lucro. Quebra de barreiras protecionistas visando o enfraquecimento de economias nacionais da periferia do mundo e até da própria Europa, abrindo espaço para o grande capital e a monopolização transnacional. Esforço para fortalecer ou manter a produção industrial em alguns países do centro imperialista, gerando desindustrialização e reprimarização da economia na periferia. E qual o resultado disso? O resultado foi crise. Continuidade da crise sem o florescimento econômico continuado e virtuoso esperado.
43. E, paralelamente, contra as expectativas iniciais do capitalismo ocidental e japonês, o neoliberalismo alimentou o avanço de competidores, como aconteceu principalmente com a China.
A financeirização, a manifestação conjuntural da crise e a dívida pública
44. Como vimos, a crise atual é o resultado de um processo crônico de contradições do capital. Mas, as elites e classes dominantes e a grande mídia empresarial dissimulam, ocultam e criam ilusões sobre a natureza da crise. Após a atenuação provisória da explosão da crise que ocorreu em 2007-2008, a burguesia mundial e seus agentes propagaram que tudo marchava para uma recuperação inexorável e que se chegaria a um tempo de bonança através de uma expansão duradora do sistema, com a retomada de elevadas taxas de lucro. Mas esse otimismo dissolveu-se frente à visível continuidade da crise.
45. A fórmula encontrada para o enfrentamento da crise crônica prolongada desde os anos 70, agravada em 2007/2008, se fez com incentivos financeiros do Estado para evitar a falência de empresas produtivas e financeiras. Mas isso, além de não resolver a crise, provocou um crescimento vertiginoso da dívida pública em todos os países, neutralizando assim a simulada recuperação da economia.
46. Isso foi combinado com forte ataque aos trabalhadores e à população mais empobrecida, negros, mulheres, imigrantes e povos indígenas, através de cortes de gastos para as chamadas políticas sociais, reduções salariais, corte de direitos, restrição nas leis contra imigrantes e aumento da violência e repressão praticadas pelo Estado.
47. Assim, fica nítido que o caminho burguês para enfrentar a crise tem sido o de o estado e as pessoas continuarem acumulando dívidas, ao mesmo tempo em que se empreende uma ofensiva contra os trabalhadores e oprimidos da sociedade. A burguesia busca, com isso, empurrar a crise para a frente, até um novo agravamento, que foi o que veio acontecer em 2019/2020, convergindo com a pandemia da Covid 19.
48. Por essa razão, devemos compreender que o capital, ao ter se lançado, a partir do final dos anos 60 e a década de 1970, na busca frenética pela especulação, o fez na tentativa de enfrentar a tendência à queda da taxa de lucro. Usou, para isso, várias saídas: incremento de novos padrões tecnológicos, redução de custos sociais do trabalho e dos meios de produção, incentivo das guerras etc. Mas, tudo isso com sérias implicações políticas, econômicas, militares e ecológicas para o funcionamento do sistema e, especialmente, para a Ordem Mundial hegemonizada, naquele período, pelo imperialismo dos EUA – apesar da bipolarização existente com a URSS naquele momento histórico, chamada de Guerra Fria.
Para além do neoliberalismo e da financeirização especulativa
49. Além do neoliberalismo e da financeirização fictícia, diversos outros acontecimentos de origem econômica, tecnocientífica e política poderiam ter ajudado o capitalismo a superar essa crise. Ao menos teoricamente. Destacamos os seguintes: a) O rompimento do Acordo de Breton Woods. Em 1944, o dólar passou a ser moeda de referência internacional, mas deveria manter-se indexado ao ouro. Diante do início da crise, em 1971 o governo dos EUA, unilateralmente, suspendeu a conversibilidade do dólar em ouro, pela incapacidade dos EUA em cumprir essa conversibilidade. Foi uma espécie de calote global; b) A Revolução Tecnocientífica, que também foi chamada de Terceira Revolução Industrial, permitiu diminuir os custos da produção e gerar competitividade. Mas, como vimos acima, isso dialeticamente diminui a exploração do trabalho vivo e a geração de mais-valia, contribuindo com a queda tendencial global da taxa de lucro. E, além disso, gera desemprego, diminui mercado consumidor e fecha espaços para o mercado e produção; c) A entrada do capital em setores econômicos que tinham menor importância global para a acúmulo de capital. É o caso de setores como a indústria cultural, saúde, educação, previdência, esporte, entretenimento e supérfluos em geral. Também é relevante o enorme peso relativo que passou a ter o grande ramo das comunicações e telecomunicações – como nunca visto antes na história; d) Avanço da exportação de capitais para áreas geográficas, antes com baixa penetração capitalista, e com peso menor no mercado de consumo mundial – como na América Latina, África, o chamado Oriente Médio e, principalmente, a Ásia; e) Maior permissividade para a destruição ambiental que, como vimos, vai se tornando planetária e tem sua origem na forma destrutiva da ação do capital, que pressupõe que não há limites para a exploração da natureza. E a produção continuada de um padrão consumista e produtivista do capitalismo, que é indispensável para gerar mais-valia e lucro; f) Fim dos regimes de tiranias burocráticas, na URSS, no Leste Europeu e em vários países espalhados pelo mundo, sob sua influência política e relações econômicas – abrindo enormes espaços para a penetração do capital privado e geração do lucro; g) Conversão capitalista da China, que hoje tem praticamente todas as características de país capitalista imperialista, exceto as agressões militares, mas que tem ampliado os investimentos bélicos. E tem sido o principal fator “nacional” que tem impedido uma recessão econômica ainda maior no mundo, devido às suas taxas altíssimas de crescimento; h) O keynesianismo industrial militar, que significa que o estado (particularmente os EUA, no período anterior), ao fazer grandes investimentos em guerras e outras ações militares pelo mundo, acaba estimulando o crescimento econômico através das compras de materiais da indústria bélica privada e de toda a cadeia econômica em torno dela;
50. Ademais, tudo isso foi acontecendo dentro de um clima ideológico favorável ao capitalismo, porque o debacle dos regimes burocráticos foi visto como uma derrota simbólica do socialismo em geral e a impossibilidade de sua construção. Desse ponto de vista, deve-se considerar que a contradição entre o capital e o trabalho não é a única e decisiva contradição isoladamente. Ela se articula de forma dialética com as contradições entre as diversas frações do capital de cada país, entre empresas monopolistas de países diferentes e entre estados nacionais diferentes. Especialmente as potências imperialistas históricas e/ou novas. Além de suas consequências negativas para a natureza e as opressões.
51. Por isso, podemos entender o agravamento das contradições dos sujeitos sociais – da classe trabalhadora em geral e dos múltiplos movimentos sociais – que se encontram face à superexploração do trabalho, às crescentes perdas de direitos históricos e atuais, colocados à margem da reprodução social e material, no tocante ao mercado de consumo e de trabalho e às condições de sobrevivência básicas (saúde, moradia, educação, alimentação e cuidados etc.).
A atual situação da bipolarização imperialista
52. A crise estrutural do capitalismo é, em si, uma crise do imperialismo, pois este é, antes de mais nada, na definição de Vladimir Lenin, uma etapa superior do capitalismo. Logo, a crise estrutural do capitalismo significa crise desse modo de produção em sua fase imperialista. Mas é também, no atual período em particular, uma crise da ordem mundial da terceira fase do imperialismo. A fase nascida da quebra do Acordo de Bretton Woods, em 1971. Aquela fase do imperialismo hegemônico unipolar, também chamado de “globalização” (ou Globalização Imperialista), encabeçado pelos EUA, sobre o conjunto do capital internacional e seus estados nacionais e os organismos internacionais, que aprofundou a hegemonia dos EUA nascida na Segunda Guerra Mundial.
53. A fase da “globalização imperialista” se consolidou (temporariamente) com a implosão os regimes burocráticos da União Soviética e seus estados satélites do Leste Europeu e de suas áreas de influência em geral. Esse fator foi tão relevante quanto o processo de conversão da China ao capitalismo. Foi quando os EUA se tornaram o centro do Imperialismo hegemônico unipolar.
54. A partir, mais ou menos, do pico da crise estrutural do capitalismo em 2008, um novo bloco imperialista começa a se afirmar, quebrando a unipolaridade imperialista. Trata-se do bloco encabeçado pela China (RPC), tendo como principal aliado a Rússia e outros aliados, como o Irã. Essa tendência de bipolarização interimperialista vai se afirmar fortemente, mais ou menos entre 2013 e 2014, iniciando um processo que pode ser chamado de segunda “guerra fria” e se consolidar durante a conjunção de crise econômica/pandemia (2019 a 2021) chegando ao ano de 2022 com a “guerra dos chips” e a guerra na Ucrânia, entre outros fatos relevantes (globais e regionais). Isso colocou a bipolarização em outro patamar.
55. Para enfrentar a crise estrutural do capitalismo imperialista unipolar neoliberal e os novos desafiantes em escala global, parte do grande capital “ocidental” e seus estados tradicionais centrais do chamado “ocidente” e o Japão apelaram ao chamado “neokeynesianismo”. Ou seja, retomaram uma ação mais forte dos estados no estímulo dos processos econômicos internos e externos: injetando recursos, criando medidas de protecionismo à produção interna, e barreiras para mercadorias e investimentos externos considerados indesejáveis (seletivamente). A isso chamamos, na resolução do VIII ENAPS, de “neokeynesianismo”.
56. Porém, isso ocorre sem fazer a recuperação de conquistas sociais obtidas durante o chamado “Estado de Bem-Estar Social” que foram dilapidadas pelo neoliberalismo. Muito pelo contrário, essas continuam sendo atacadas, tanto na periferia como nos países centrais do capitalismo mundial que tinham alcançado esse “Estado de Bem-Estar”.
57. Do ponto de vista do capitalismo, isso se tornou necessário para enfrentar as repercussões da crise econômica e financeira nos âmbitos nacionais em, praticamente, todos os estados. E, nas centenárias potências imperialistas, esse processo também ocorre para que seja possível injetar recursos, dólares e euros, principalmente para conseguir competir com a nova potência imperialista ascendente (a China). Ou seja, além de criar barreiras políticas para as mercadorias, essas potências imperialistas também tentam bloquear os avanços econômicos e especialmente a criação tecnocientífica chinesa.
58. A investida estadunidense, nesse sentido, começa de fato no primeiro mandato de Donald Trump. Mas, naquela ocasião, foi principalmente a tomada de medidas visando reduzir a importação de mercadorias de maior valor agregado industrial chinesas e a imposição de sanções a algumas empresas de tecnologias chinesas, como a Huawei.
59. Porém, querendo impulsionar a sua política expressa no bordão “Os Estados Unidos em primeiro lugar”[1], Trump acabou sendo agressivo também contra seus parceiros tradicionais na Europa, o Japão e o Canadá. E, assim, em certo sentido, isolou os EUA. A contragosto, permitiu avanços chineses em diversas regiões.
60. O governo Biden manteve a linha de combate à RPC e à Rússia, mas mudando os procedimentos. Ou seja, buscou um realinhamento de alianças, criando grandes parcerias entre os estados capitalistas ocidentais (e o Japão) e suas empresas monopolistas e centros de pesquisa, visando o processo de produção associada e permanente em ciência e tecnologia, com vistas a enfrentar a China e os aliados de suas áreas de influência.
61. Além disso, os EUA ainda prometeram financiamentos a programas nacionais e regionais em países dependentes em disputa em todos os continentes onde a China estava nadando de braçada. E promoveram várias ações com vistas a retomar iniciativas de parcerias econômicas ou segurança. Nesse sentido, foi grande a movimentação dos EUA e da Europa para, além de parcerias entre eles, também tentar tratados econômicos, diplomáticos e militares com os países da periferia, especialmente na África, Ásia e Oriente Médio.
62. Ao mesmo tempo, o processo de bloqueios protecionistas econômicos, iniciado por Trump 1, evoluiu significativamente para a restrição aos investimentos da China e, especialmente, a proibição de exportação (dos EUA para a RPC) de peças com tecnologias mais avançadas, como os semicondutores (microchips) e máquinas de produção de microchips para a Rússia e a China.
63. Outro fenômeno importante, durante o governo Biden, foi o crescimento do comércio em moedas além do dólar. Ou seja, o uso de moedas de diversos países, especialmente o yuan chinês no lugar do dólar. Isso teve algum crescimento, sendo um dos objetivos do bloco China/Rússia de minar a ainda ampla hegemonia do dólar como moeda de reserva internacional e de intercâmbio comercial. O yuan e outras moedas têm avançado paulatinamente. Para a política do governo Biden era preciso enfrentar a China, que, em cerca de 20 anos, se tornou atualmente o segundo país mais exportador de capitais (principal atributo de um país capitalista imperialista) da história do capitalismo, só menor que os EUA, e maior do que as outras nações imperialistas.
64. A estratégia de Biden era mais articulada para combinar as capacidades dos parceiros do antigo imperialismo, para enfrentar os desafios da disputa econômica, tecnológica e militar com o bloco liderado por China e Rússia. Na prática, criou algumas dificuldades para essas potências, mas não impediu seu desenvolvimento, destacadamente da China.
Algumas particularidades do imperialismo chinês
65. A virada da China em direção ao capitalismo desde 1978, mantendo o controle da economia e das forças armadas através do Estado e do Partido Comunista, levou adiante, e de forma bem-sucedida, um capitalismo nacional-desenvolvimentista e imperialista com características chinesas, tornando-se a maior economia do mundo segundo critérios do Banco Mundial e segunda de acordo com o FMI.
66. A partir de um projeto estratégico de longo prazo, a China busca integrar blocos de países sob sua liderança econômica e estratégica de desenvolvimento, principalmente em áreas de energia, infraestrutura, transportes de escoamento da produção por mar e terra, tendo por base créditos de empresas privadas e do Estado Chinês. Assim, junto aos seus aliados poderosos como a Rússia e outros menores, a China conforma o desenho de um novo polo de poder e de hegemonia em construção, buscando consolidar um novo paradigma de relações internacionais capitalistas que podemos caracterizar como um novo tipo de imperialismo alternativo à unipolaridade hegemônica do imperialismo estadunidense, que foi forjado desde o fim da URSS e está em declínio.
67. Esse novo tipo de imperialismo, forjado no curso das contradições do capitalismo em movimento, não muda, entretanto, a essência da crise do capital e seus limites históricos concernentes à sua forma de produção material e social, nem os seus impactos catastróficos em relação a natureza, que são cada vez mais profundos e de difícil controle. Por isso mesmo, a lógica do padrão de trocas desiguais e de dependência dos países da periferia do capitalismo com esse novo centro de acumulação mundial do capital imperialista chinês muda a forma, mas não a essência de relações desiguais, de transferência de valor produzido pela força de trabalho e a dependência dos países da periferia do capitalismo. Assim, nas relações comerciais, a China continua, como faziam as outras potências, subordinando essas economias dependentes a centrar-se na produção e exportação de produtos primários com baixo valor agregado. Contribui, assim, para o processo e desindustrialização e dependência tecnológica incontornável, de difícil mudança nos termos desse padrão de dependência.
68. Por outro lado, quando a China exporta capitais para os países dependentes, na forma de empréstimos, financiamentos ou IED (Investimentos Diretos de Capitais) para algum tipo de indústria ou infraestrutura, através de empresas estatais ou privadas, transfere valor da periferia para as matrizes chinesas e reproduz a dependência tecnológica e financeira.
69. Cumpre ainda salientar a forma como ocorre a ação imperialista no plano político. Diferentemente dos EUA, não há uma imposição agressiva de pré-condições políticas, ideológicas e culturais aos países da periferia e dependentes do sistema global do capitalismo para integrar-se a essa ordem social de domínio econômico, político, ideológico e militar. A forma desse imperialismo chinês, em primeiro lugar, se realiza de maneira pragmática e dentro do prisma essencialmente econômico e diplomático, com a negociação de condições materiais e regras legais que favoreçam os capitais chineses. A construção política, ideológica e de valores se dá a partir e em decorrência desse processo negociado de forma lenta e subordinada aos interesses de longo prazo, sem imposições militares. Esse novo tipo de imperialismo vai se conformando no atual contexto de declínio da hegemonia estadunidense, que vem se expressando em sua perda relativa de poder econômico, tecnológico e cultural e de controle das nações antes subordinadas a sua área de influência.
70. Nesse sentido, a China faz imposições econômicas quando necessário, mas não tem feito intervenções militares para impor seus interesses, se relacionando pragmática, diplomática e economicamente com os países, seja qual for o seu regime político ou grupo político-ideológico governante, desde que isso traga vantagens econômicas imediatas ou futuras e/ou avanços em sua posição geopolítica estratégica. Mas, por outro lado, acaba contribuindo materialmente e diplomaticamente para a sustentação de regimes de extrema-direita e até mesmo genocidas, como é o caso do estado sionista de Israel.
O Governo Trump 2
71. A derrota de Biden/Harris (Partido Democrata) e a volta de Trump implicou o retorno da linha política de Trump 1. Porém, numa situação mais complicada, por causa do desenvolvimento permanente da China em todos os campos. Portanto, até onde Trump 2 vai levar, concretamente, as suas ameaças, discursos e medidas acerca do enfrentamento interimperialista ainda não está totalmente claro.
72. Porém, além de manter as medidas da administração Biden, Trump está endurecendo o jogo e está provocando também mais conflito com velhos aliados imperialistas. O retorno de Trump comprovou os impasses atuais da crise estrutural do capitalismo e da disputa interimperialista, e como isso se manifesta nos EUA, internamente e em sua política externa.
73. Trump e Biden representam duas vertentes do imperialismo estadunidense. Duas estratégias do mesmo imperialismo. E, por outro lado, é uma das duas vertentes (blocos) principais da atual fase do imperialismo global, em contraposição ao bloco liderado por China e Rússia. O imperialismo é, antes de tudo, um período histórico do capitalismo mundial. As políticas de Trump têm, grosso modo, um alvo interno e outro externo. O imperialismo tem, por sua natureza, uma tendência de difusão econômica e política extranacional e, quando necessário, com agressões militares. Portanto, não há imperialismo isolacionista.
74. Trump fala contraditoriamente e faz confusões, mas suas políticas interna e externa tentam ser mutuamente articuladas. Para dentro, ele visa internalizar capitais e inovação em ciência e tecnologia com fins industriais. Facilitar a destruição ambiental para abrir mais espaços para a acumulação de capitais. Melhorar os empregos e estimular o mercado interno e o PIB e, com isso, tentar manter sua base de apoio entre os trabalhadores. Expulsar os imigrantes considerados, por ele e o Partido Republicano, indesejáveis. Praticar maior autoritarismo. Por um lado, centraliza mais o poder presidencial que detém e, por outro, endurece a repressão a quem ele considera inimigo interno. Paralelamente, desenvolve ações para robustecer a cultura de direita dentro e fora do estado, fortalecendo esquemas e comportamentos conservadores.
75. Na política externa, a vertente trumpista do imperialismo pretende garantir um dólar forte e não vai poder deixar de ter a China como principal inimigo. Tentou alguma mediação com a Rússia, para buscar isolar a China, mas isso agora é tarde. Os acordos China-Rússia são muito profundos e de médio e longo prazos. Por mais que Trump e Putin tenham aproximações ideológicas, pois ambos são parte de um campo de direita autoritária e marcada pelo conservadorismo cultural, ninguém sabe quem será o próximo presidente estadunidense e o que ele fará. Isso porque nos detalhes das linhas imperialistas dos EUA não há uma “política de estado”. Putin não vai se afastar de uma relação mais segura com a China para se aliar a Trump, com sua possível provisoriedade e ação ziguezagueante.
76. Com a implementação das políticas protecionistas dos EUA, principalmente as taxações (tarifaços), a consequência é o aumento dos atritos com antigos parceiros imperialistas, ou seja, os países europeus e o Japão, além de vizinhos como o Canadá e o México. A política externa visa aprofundar o poder de influência o mais direto possível nos territórios mais próximos e relativamente mais frágeis, como o Ártico, a Groelândia e o Panamá (especialmente o canal interoceânico), mas não parece ter força para novas invasões militares diretas.
77. Trump busca reduzir custos estatais (materiais e políticos) no resto do mundo onde não tenha contrapartida mais imediata. Inclusive, prometeu uma ação mais racional e mais cautela em intervenções militares diretas. Mas, sem abrir mão de fazer isso, quando for necessário para afirmar o que considera os interesses das empresas dos EUA, especialmente as monopolistas, e dos estados aliados, como Israel. Por outro lado, ainda não conseguiu atender seus compromissos eleitorais de acabar com as guerras em curtíssimo prazo.
78. Como vimos, uma questão central na sua política econômica de forte repercussão internacional são as medidas protecionistas, como as tarifas de importação de mercadorias e a pressão para internalizar capitais, ao menos em alguns setores. Busca facilitar a importação de capitais (que não sejam “inimigos”), para estimular sua economia interna. Nessa perspectiva é que podemos entender o rompimento de acordos e tratados, em áreas que ele considera custosas ou ideologicamente negativas. Como a COP, OMS e outros órgãos da ONU, ameaçando cortar recursos de outras, como a OTAN, o que está provocando maiores despesas militares dos países europeus, que já estavam vivendo apertos orçamentários.
79. Para o conjunto da obra, Trump espera o apoio dos donos das Big Techs, que têm alta capacidade de manipulação das informações. E, dentro do estado, possui a maioria do Supremo Tribunal e a maioria simples no Congresso (Senado e Câmara). Porém, isso é insuficiente para mudanças na Constituição. Não vai ser fácil dar tudo “certo” para os EUA. Está gerando resistências em movimentos sociais internos e externos aos EUA, já tendo ocorrido manifestações de protestos de grande vulto, atritos com as antigas potências imperialistas aliadas/subalternas, resistências e retaliações de países prejudicados por suas sanções “econômicas.
80. Trump já está enfrentando dificuldades, por exemplo, dentro do aparelho de Estado dos EUA, no aparato civil e no chamado complexo industrial militar. Está gerando atritos dentro da elite política, de frações das classes dominantes e da chamada classe média dos EUA. Tende a faltar mão de obra para trabalhos que os “estadunidenses” regulares não querem fazer. Pode haver pressões de aumento salarial, provocando inflação. Já está gerando inflação pelo aumento do preço dos importados e/ou da substituição de importações por produtos MAGA mais caros. Ele já perdeu alguns aliados de primeira hora, como o ultrabilionário Elon Musk, com quem teve uma briga pública sensacionalista.
81. O governo Trump tem recebido respostas duras da China a seus ataques tarifários, tanto em represálias tarifárias, quanto na suspensão de exportações chinesas de minérios essenciais e peças necessárias para o funcionamento da cadeia produtiva interna dos EUA. Isso mostra a dificuldade de um rompimento com a lógica globalizante do capitalismo em seu estágio imperialista, lógica que já teve os EUA como seu principal defensor. Acaba abrindo espaços para as empresas capitalistas chinesas ampliarem suas presenças em diversos países, de todos os continentes, no seu jeito de imperialismo que oferece trocas, lucros e vantagens para as frações burguesas desses países, ao mesmo tempo que aprofunda a dependência desses países aos seus capitais.
82. Trump está sendo obrigado a recuar e mediar muitas de suas decisões e discursos, perde apoio popular e corre o risco de perder as eleições parlamentares de 2026.
[ver mais detalhes na resolução específica CNAPS sobre Governo Trump 2 neste link:.https://acaopopularsocialista.com.br/2025/05/09/fagulhas-do-declinio/ ]
Soberania Nacional, anti-imperialismo e subsoberania
83. As relações internacionais têm moldado historicamente os países dependentes, desde o período colonial. Atualmente, essas relações estão intimamente ligadas à crise do capitalismo e à bipolarização entre as potências imperialistas. Mas o contexto internacional está influenciando diretamente a vida política e econômica desses países, como o Brasil, impactando decisões do governo e movimentos sociais.
84. Recentemente, a partir das agressões mais grotescas do governo Trump, houve um certo renascimento no discurso sobre o imperialismo. Mas a “política soberana” propagada hegemonicamente em termos mundiais não vai além de uma defesa da subsoberania e não uma luta realmente anti-imperialista. Os países da periferia dependente continuam subordinados ao grande capital, buscando diversificar sua dependência sem romper com o neoliberalismo. Essa diversificação inclui o capital chinês.
85. Entretanto, o discurso predominante sobre “soberania” não reflete uma verdadeira postura anti-imperialista, mas apenas a continuidade da globalização neoliberal. Temos visto isso no Brasil, mas na verdade, isso não é um problema somente do governo e da chamada “esquerda” brasileira. Basta olhar o que está sendo escrito e falado em lives e vídeos etc., pela esquerda em diversos países da América Latina e do mundo.
86. Contraditoriamente, aqueles que tanto falavam e combatiam o chamado globalismo estão agora, de fato, defendendo um tipo de “soberania” que é para manter o “globalismo” neoliberal e o livre mercado. E, do ponto de vista concreto, Trump é aquele que está aplicando políticas que tentam limitar, parcialmente, aquelas relações chamadas de globalismo. É o que ocorre quando ele toma uma série de medidas de protecionismo econômico dos EUA, que tentam bloquear parcialmente essas relações da globalização imperialista.
87. É claro que é fundamental toda a unidade para combater as intervenções mais grotescas de um presidente de um país estrangeiro, como Donald Trump dos EUA, na vida política concreta dos países dependentes. Mas é preciso ir mais adiante. Precisamos ir além da defesa do livre mercado, da Ordem Mundial da OMC (Organização Mundial do Comércio), como ela era antes de Trump. Isso não vai resolver os problemas estruturais dos trabalhadores do mundo e dos países dependentes. Muito menos seria uma solução a substituição do capital imperialista dos EUA pelos europeus, japoneses, chineses ou russos.
88. Portanto, é fundamental que a esquerda aprofunde e amplie seu discurso político, abordando questões estruturais de soberania nacional e propondo mudanças profundas. Por exemplo, a nacionalização de recursos naturais estratégicos e a reestatização de empresas privatizadas são essenciais. A luta anti-imperialista deve ser um foco central, recuperando símbolos nacionais das garras da extrema-direita. A unidade para combater interferências externas, como as de Trump, é vital. Mas é necessário avançar além da defesa do livre mercado e da antiga ordem mundial.
89. A continuidade das políticas neoliberais e dependentes, sem mudanças estruturais profundas, pode acabar favorecendo a extrema-direita e a desigualdade social na América Latina e outros países da periferia, porque acaba reforçando o poder do grande capital. Portanto, é crucial agir para evitar a repetição de erros passados e lutar por projetos populares, anti-imperialistas, democráticos e com uma perspectiva ecossocialista, que vão além da mera subsoberania e uma posição defensiva diante das agressões mais ostensivas de Trump.
Capitalismo é destruição ambiental e crise do capitalismo é crise climática
90. No cenário da crise estrutural do capitalismo, aprofunda-se a crise ambiental, especialmente a climática, vinculada ao agravamento insustentável do aquecimento global. O capitalismo em crise está levando o planeta junto. Enquanto isso, a máquina de lucros não para de devastar a natureza. O aquecimento global avança, os desastres ambientais se multiplicam, e o imperialismo continua sua guerra suicida contra a Terra. Na tentativa de preservar suas taxas de lucro, o grande capital acelera a devastação ecológica, situação ainda mais exacerbada no século XXI pelas tensões interimperialistas.
91. Com a Revolução Industrial, a burguesia transformou o mundo em uma fábrica de exploração e destruição planetária. É fundamental reconhecer que o meio ambiente sofreu um impacto profundo nesse processo. Nem os regimes burocráticos (como a URSS, que falhou em romper com a lógica produtivista destrutiva) conseguiram frear essa lógica. Agora, no século XXI, a crise é ainda pior: as velhas e novas potências imperialistas brigam entre si pelo controle dos recursos, enquanto o planeta queima. A relação da humanidade com os recursos naturais é um processo que não se dá apenas no campo econômico, mas que afeta diretamente a qualidade de vida das populações e a saúde do ser humano, principalmente os trabalhadores, e do meio ambiente.
92. Agora vem o chamado “capitalismo verde” – a grande mentira das classes e elites dominantes. É uma tentativa de setores do capital de reconfigurar suas estratégias de acumulação através de investimentos em tecnologias ditas “verdes” ou “sustentáveis”. No entanto, esse ecocapitalismo revela-se incapaz de resolver a crise climática ou de mediar as contradições entre monopólios imperialistas, Estados dominantes e nações dependentes. O que vemos é uma fachada que oculta a continuidade da exploração destrutiva e a degradação do meio ambiente, enquanto os capitalistas procuram encobrir seus verdadeiros interesses. O ecocapitalismo também cresce na China, com várias iniciativas paliativas à destruição ambiental no seu território, ao mesmo tempo que exporta destruição ambiental junto com a exportação de capitais, especialmente aquele ligado ao agronegócio e ao extrativismo mineral.
93. Querem nos fazer acreditar que dá para salvar o clima com mercado de carbono, carros elétricos de luxo e energia supostamente “limpa” nas mãos de novas ou antigas multinacionais que afogam o povo e a Terra em poluição. Essas falsas soluções dão continuidade à destruição de nosso planeta. As COPs da ONU se transformaram num teatro: a COP28, a COP29 e agora a COP30, que será realizada no Brasil em novembro deste ano, só servem para maquiar a destruição. Nada muda efetivamente, porque o sistema hegemônico realmente não quer mudar – sua única lei é o lucro, mesmo que custe a destruição da natureza. Para piorar, o fracasso em conter o aquecimento global torna-se ainda mais evidente com a perspectiva de boicote anunciado por Trump em seu segundo mandato, pois ele decidiu que os EUA vão boicotar até a farsa das COPs.
94. Enquanto isso, o povo pobre, os povos originários e a classe trabalhadora mundial são os que mais sofrem com enchentes, secas e fome. Esses desastres são uma consequência direta do descaso com o meio ambiente, e o povo explorado e oprimido é quem paga o preço mais alto.
95. Não vai ser a burguesia “esverdeada” que vai resolver essa crise. É hora de lutar por um mundo onde a vida valha mais que o lucro, o que só pode vir com uma revolução popular numa perspectiva ecossocialista. Precisamos de uma transformação radical que priorize o meio ambiente e a justiça social, onde a natureza e a humanidade coexistam em harmonia e respeito mútuo. Essa luta é de todos nós, pois um futuro verdadeiramente sustentável e justo depende da consciência e capacidade de luta e unidade das trabalhadoras e trabalhadores e de tomarmos as rédeas do nosso destino. É um chamado à ação, uma convocação para sonharmos e construirmos um novo mundo, um estado dos trabalhadores que promova uma transição ecossocialista.
As guerras em curso na atual conjuntura
96. São diversas guerras hoje em curso, a maioria sem destaque na mídia capitalista. A Guerra na Ucrânia e o massacre genocida do Estado sionista de Israel sobre os palestinos (que a mídia burguesa ocidental chama de guerra contra o Hamas), os ataques de Israel ao Líbano, os conflitos na Síria e no Irã continuam sendo as mais importantes no contexto internacional. Outro fato importante foi a queda de Al Assad e seu regime na Síria. [ver resolução da APS sobre isso. Link: https://acaopopularsocialista.com.br/2025/03/11/sobre-situacao-da-siria/.]
97. Na Ucrânia, a guerra interimperialista, que tinha saído de uma maior visibilidade na grande mídia capitalista, voltou aos destaques com a vitória de Donald Trump. Sendo uma guerra “por procuração” (entre EUA/Europa e Rússia), a posição do novo governo pode ser decisiva para o desenrolar dos fatos. Porém, apesar de ser uma “guerra por procuração”, na qual o estado ucraniano expressa os interesses dos EUA/UE/OTAN, à medida que a guerra foi se desenvolvendo a participação mais direta de EUA/UE/OTAN foi se fazendo cada vez mais direta. Isso se evidencia não somente em termos de apoio em armas, financiamentos, sustentação política diplomática e sanções à Rússia, mas também com a presença direta de assessores militares e apoio técnico de informações, contrainformações e recursos tecnológicos mais avançados indispensáveis para as guerras atuais.
98. Porém, mesmo com todo esse investimento do bloco em torno da OTAN no terreno, essa guerra parece ter chegado a um impasse estratégico, com um avanço militar da Rússia sobre o território ucraniano. A Rússia consolidou a ocupação de um território significativo, aparentemente satisfazendo seus principais objetivos imperialistas na Ucrânia. Sempre foi difícil identificar os verdadeiros objetivos da invasão Russa na Ucrânia. Isso sofreu mudanças no decorrer da guerra. Mas, no momento, a meta parece ser a consolidação da reanexação da Criméia e anexação dos territórios que a Rússia ocupa atualmente no Leste e parte do Sul do país.
99. O Estado ucraniano, mesmo com enorme apoio financeiro e material (armamentos, munições, infraestrutura, logística, treinamento etc.) da OTAN e dos seus países membros, especialmente dos EUA, não teve mais condições de retomar esses territórios. E, agora, com o governo Trump, a situação está paulatinamente piorando.
100. Essa hipótese principal desde o início da guerra, que era de vitória militar da Rússia, ficou reforçada com o fracasso das tentativas de contraofensivas ucranianas. A derrota da Ucrânia é também uma derrota dos EUA, da União Europeia, da OTAN e do conjunto dos seus países membros. Mas Trump tem pretendido se livrar disso, dizendo que a culpa é de Biden e não dos EUA, e que ele, Trump, sempre teria sido contra essa guerra. Por outro lado, as sanções do imperialismo dos EUA e aliados contra a Rússia não conseguiram impedir sua expansão imperialista dentro da Ucrânia e uma situação econômica razoável depois dos primeiros impactos negativos.
101. Entretanto, um balanço geral dos saldos econômicos, políticos e militares da Rússia não é simples. No período, a Rússia ficou com um campo de relações internacionais mais restrito, aumentou sua dependência para com a China e perdeu influência sobre uma aliada histórica, a Armênia. Viu a OTAN avançar para novos países e sofreu uma derrota militar (e política e econômica) muito importante na Síria, onde ficou impossibilitada de manter uma forte ação devido aos desgastes da Guerra na Ucrânia.
102. Agrava-se também a perda de bases de sustentação política do governo Zelensky e a insatisfação popular na Ucrânia, na Europa em geral e nos EUA, apesar do fortalecimento relativo da OTAN, com sua amplificação dentro da Europa, e de um maior controle dos EUA e da OTAN sobre os países europeus. Mas agora, contraditoriamente, Trump gera instabilidades na OTAN.
103. Entretanto, isso não significa uma vitória da luta anti-imperialista em geral, como querem alguns forças e influencers de esquerda e nacional-desenvolvimentistas no Brasil e no mundo. Eles continuam iludidos com um suposto papel progressista da Rússia e de Putin. As principais vítimas, além das fatalidades entre soldados de ambos os lados, são uma grande destruição física e a morte de civis ucranianos e maiores dificuldades nas condições de vida para o povo trabalhador na Europa.
104. Até a vitória eleitoral de Trump e o final do governo Biden, nenhum acordo, tratado ou trégua estava formalmente em andamento. Nenhum dos lados anunciava publicamente a possibilidade de fazer concessões para um acordo de paz nem, ao menos, uma trégua para uma negociação consistente. Porém, a vitória de Trump, dentro do quadro acima descrito, e a repercussão negativa da guerra no território ucraniano, na Rússia e nos países direta ou indiretamente envolvidos estão pressionando para o início de negociações e eventuais concessões das partes.
105. O resultado, concretamente, vai depender de como a nova direção política do imperialismo estadunidense vai conduzir a questão. Não somente em relação à questão específica da Guerra na Ucrânia, pois isso está ligado à condução militar mais geral dos EUA e da diminuição dos aportes financeiros dos EUA à OTAN, além da pressão para que os países europeus em geral aumentem significativamente recursos orçamentários para a aliança militar atlântica.
106. Tudo isso em uma situação de agravamento da crise econômica na Europa, na piora relativa das condições de vida e do crescimento da extrema-direita no continente europeu. Inclusive de uma extrema-direita simpatizante do regime de direita autoritário e conservador da Rússia, em oposições ou em governos, como o caso da Hungria. Mas Trump já viu que o caso é mais complicado e que há resistências de vários tipos, tanto da Ucrânia, como da Rússia e da União Europeia, que tampouco tem uma posição única.
[Ver as resoluções da APS sobre a guerra na Ucrânia Link: https://acaopopularsocialista.com.br/2022/02/28/nem-otan-nem-eua-nem-russia-oprimindo-o-povo-da-ucrania/ ]
107. Na Palestina, desde outubro de 2023, o Estado Sionista de Israel trava uma nova guerra contra o povo palestino. Mesmo que os ataques sionistas tenham bases históricas bem anteriores à crise e à bipolarização interimperialista atual, e que tenha como centro o conflito local, isso também acaba se inserindo dentro da bipolarização interimperialista. Porém, com uma ação forte dos EUA no processo, enquanto é bem moderada e distante da parte da Rússia e ainda menos participativa da parte da China. Rússia e China não foram além de posicionamentos formais nos marcos das discussões e resoluções limitadas, e nunca postas em prática, pelos órgãos da ONU. Ademais, a China é o segundo parceiro econômico de Israel, só superada pelos EUA. Portanto, acaba dando sustentação material ao estado sionista.
108. Nesses dois anos de massacres genocidas, o povo palestino mostrou mais uma vez sua combatividade e capacidade de resistência, e o Estado sionista sofreu um desgaste grande na chamada “opinião pública” internacional. Mas, o povo palestino sofreu derrotas importantes que, entretanto, continuam não sendo definitivas. Agora, já sob influência de Trump, houve um breve acordo de cessar-fogotemporário e troca de reféns israelitas em mãos do Hamas por prisioneiros palestinos que estavam nos cárceres de Israel, inclusive crianças. Numa situação de enfraquecimento dos aliados mais próximos da Palestina (Hezbollah e Irã) e a queda do regime de Assad, a trégua foi considerada uma vitória parcial e momentânea num quadro mais geral de derrota e continuidade da resistência. Mas a violência brutal do Estado sionista genocida continua.
[Ver a resolução específica da CNAPS sobre a Palestina. Link: https://acaopopularsocialista.com.br/2025/03/12/o-genocidio-sistematico-planejado/]
Articulações internacionais
109. No período anterior, no governo Biden, tanto os EUA e a UE como o campo China-Rússia protagonizaram diversas articulações internacionais e regionais ou temáticas (econômicas, políticas e militares) ocorridas em 2022 e 2024. Do lado dos EUA, tudo ficou em stand-by a partir de Trump 2. Algumas mudanças mais gerais se confirmaram, como os impactos das novas políticas sobre a OTAN, alianças com a UE, retirada da COP, OMS e outros órgãos da ONU, e do NAFTA.
110. Mas do outro lado da disputa interimperialista, as articulações geopolíticas continuam. Do ponto de vista da disputa de hegemonia chinesa, um fato importante do período foi a concretização da ampliação do BRICS, decidida em suas recentes cúpulas, realizadas na África do Sul em agosto 2023 e na Rússia em outubro de 2024. Além dos membros históricos Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, na cúpula de 2023 foram aprovados Irã, Arábia Saudita, Argentina, Egito, Etiópia e Emirados Árabes Unidos. Porém, a Argentina acabou ficando fora do BRICS por decisão do governo Milei, e os sauditas ainda não responderam definitivamente se aceitam o convite. Além disso, Belarus, Bolívia, Cazaquistão, Cuba, Malásia, Tailândia, Uganda, Uzbequistão, Nigéria e Vietnã foram definidos “países parceiros” do agrupamento. Essa nova modalidade de participação foi criada na Cúpula da Rússia (outubro 2024).
111. Entretanto, mesmo que esse processo tenha sido mais uma vitória da expansão diplomática e econômica da China e da Rússia, não se deve exagerar na supervalorização dessa ampliação e do próprio papel do BRICS, pois esse fórum continua não sendo um bloco econômico e muito menos geopolítico ou militar. Nele, além dos interesses comuns, há grandes contradições de interesse, especialmente entre as duas principais economias: as vizinhas China e Índia. Esta última é governada por um governo de direita autoritária e conservadora e se mantém fazendo um jogo entre os EUA e a Rússia.
112. A Cúpula do BRICS, que aconteceu no Brasil em dezembro de 2024, mostrou que não foi tomada nenhuma decisão nova de grande relevância. Sua repercussão maior se deu principalmente por causa das ameaças ao grupo feitas por Trump. Entretanto, as medidas que Trump tomou ocorreram de fato como ações concretas contra os países específicos, caso a caso, e não ao fórum BRICS como um todo. Por outro lado, o BRICS mostrou sua insuficiência, ao não tomar nenhuma ação abrangente conjunta contra as ameaças, tarifaços e sanções dos EUA/Trump contra seus membros, deixando cada um lidar com esses ataques por conta própria. Nem tampouco promoveu condenações materiais efetivas contra o estado sionista de Israel ou tomou medidas eficazes para colocar um fim à guerra na Ucrânia. Por outro lado, vale registrar uma maior aproximação, ao menos temporária, entre China e Índia, em virtude do tarifaço de Trump contra a Índia, devido ao comércio de petróleo continuado entre esse país e a Rússia. Mas, é cedo para conclusões sobre o desenrolar dessa proximidade.
A América Latina e os golpes de estado anticoloniais na África
113. Desde 2021, ocorreram golpes de estado nacionalistas em países africanos que foram colônias da França na região do Sahel, que é preciso acompanhar. Com isso, Burkina Faso, Mali e Níger levaram ao poder frações de militares nacionalistas e mais jovens, com uma nítida oposição e confronto ao contexto de verdadeira semicolonização que o imperialismo francês manteve em suas ex-colônias africanas. Isso melhora um clima anti-imperialista em geral na África e, sem dúvida, enfraquece o imperialismo francês em particular. Por outro lado, esses países se aproximaram da China e da Rússia. Mas ainda não está claro até que ponto os novos governos levarão uma luta anti-imperialista em geral.
114. Na América Latina continua havendo um revezamento de governos, entre aqueles do tipo genericamente considerados neodesenvolvimentistas (que não romperam, entretanto, com o neoliberalismo) e aqueles da direita liberal ou ultraliberal e de extrema-direita. De 2021 para cá, saiu a direita tradicional do Chile e voltou uma centro-esquerda neoliberal através de Gabriel Boric, mas as novas eleições previstas para 2025 podem trazer a direita de volta ao governo. Em 2022, Gustavo Petro foi eleito o primeiro presidente considerado de esquerda na Colômbia. No final de 2022, um golpe de estado via parlamentar, derrubou o presidente do Peru, Pedro Castillo, eleito com um programa e apoio da esquerda, colocando no governo sua vice, para aplicar um programa da direita neoliberal e autoritária; agora, um novo golpe dentro do golpe derrubou a golpista e reforçou as posições das extrema-direita. No Brasil, em 2023, saiu o neofascista Bolsonaro e voltou Lula da Silva. Na Argentina, o kirchnerista Alberto Fernandes terminou o mandato em meio a uma crise, e entrou o neofascista Javier Milei, que, apesar de um péssimo governo, conseguiu vencer as eleições para uma parte das cadeiras parlamentares em 2025. Em 2024, a direita conservadora no Uruguai terminou o mandato e voltou a Frente Ampla, considerada de centro-esquerda. Em 2020, o neodesenvolvimentismo do MAS da Bolívia já havia voltado ao governo substituindo os golpistas de extrema-direita que derrubaram Evo Morales em 2019. Porém, agora em 2025, aproveitando uma profunda divisão da centro-esquerda boliviana, a direita volta à presidência pela via eleitoral. Nos outros países não houve alterações significativas nos últimos anos.
115. Conforme já desenvolvemos em mais de uma resolução anterior, esse “revezamento” acontece porque nenhuma dessas forças consegue governar de modo estável, enfrentando e superando os grandes problemas nacionais e a dependência econômica mais geral desses países ao imperialismo. Somente um processo revolucionário que fosse capaz de romper a dependência e promover uma radical melhora nas condições de vida do povo trabalhador de seus países, em transição ao socialismo, poderia quebrar esse contexto de instabilidade e seguidas crises.
116. Portanto, temos agora exemplos contraditórios, nas três principais economias da América do Sul, como a derrota eleitoral da extrema-direita no Brasil e sua vitória na Argentina, ao passo que, pela primeira vez em muitos anos, chegou ao governo colombiano uma das forças da esquerda do espectro político. Além disso, houve a importante reeleição de Claudia Sheinbaum no México, mantendo o governo em um campo de “centro-esquerda”.
117. O novo governo Trump vem com discurso e medidas claramente anti-América Latina. É a volta do velho imperialismo da “Doutrina Monroe” do presidente Monroe, que em 1823 declarou que a “América é dos americanos” (EUA), e do “Destino Manifesto”, discurso do presidente James Buchanan que na sua posse em 1857 afirmou que o destino os EUA era se expandir por toda a América, do Ártico até a América do Sul. A deportação violenta de imigrantes latino-americanos, a pretensão de reinvadir o Canal do Panamá, o muro de fronteira, os ataques ao México e seu povo e a taxação de mercadorias são apenas alguns exemplos. Mais recentemente, depois de tentativas de acordos, Trump retomou de modo mais agressivo do que nunca as ameaças à Venezuela, inclusive de ataques militares diretos, além daqueles bombardeios criminosos e ilegais que estão sendo feitos aos barcos acusados sem provas de serem de narcotraficantes.
A Resistência Popular continua viva!
118. Apesar do clima negativo diante da ofensiva das extremas-direitas e da predominância de governos das direitas em geral e do social-liberalismo, em todos os continentes o povo trabalhador e oprimido continua resistindo aos ataques e a todas as formas de opressão. Essas lutas acontecem através de organizações já tradicionais como os partidos e os sindicatos, via mobilizações e greves, mas também por novos meios, como fazem os trabalhadores por aplicativos, as lutas da juventude, dos povos indígenas, das mulheres, do antirracismo, da comunidade LGBTQIA+, dos imigrantes, dos camponeses e quilombolas, assim como vários tipos e formas de luta ambientalista.
119. Na Europa Ocidental ou Oriental, na América Latina, nos EUA, na China, na Índia, em outros países da Ásia em geral, na África e no chamado Oriente Médio, especialmente a resistência palestina, foram muito importantes os pequenos protestos e lutas dos trabalhadores e oprimidos. Ocorreram grandes mobilizações de combate ao sionismo genocida, que massacra os palestinos, e ao neofascismo e sua agressão a outros povos e países, assim como a luta contra a guerra por procuração interimperialista entre Rússia e Ucrânia.
120. Internacionalmente, a resistência popular continua em seus movimentos pendulares entre momentos de maiores e menores mobilizações. Porém, em termos mais recentes, foi muito importante o desenvolvimento de grandes mobilizações contra o genocídio sionista na Palestina, em todos os continentes, especialmente na Europa e nos EUA, e o papel cumprido pela Flotilha de solidariedade à Palestina. Essas grandes mobilizações pressionaram muitos governos europeus a reconhecerem o direito a um Estado Palestino (mesmo restrito à política dos dois Estados) e à trégua em Gaza, apesar de ainda ser insuficiente, instável e sem garantias efetivas para o povo palestino. Também foram de grande expressão as manifestações e lutas de resistência às políticas reacionárias de Donald Trump, seja dentro dos EUA, seja em outras partes do mundo. São exemplos de solidariedade internacionalista há muito tempo não vistas. Um passo importante como exemplo para a resistência popular internacional.
121. A resistência a Trump e suas ações de extrema-direita, como citamos, também tem se expressado em grandes mobilizações nos EUA e em outras partes do mundo. Enfim, todo dia é dia de luta em algum lugar de todos os países do mundo. Mas essas lutas ainda são limitadas pela ausência, de modo geral de forças de esquerda revolucionária que tenham base de massas e força para liderar. Construir essa vanguarda é uma das tarefas principais para as/os revolucionárias/os de todo o mundo.
A solidariedade internacional é necessária para derrotar o imperialismo
122. Nossa luta internacional é de enfrentamento ao imperialismo como expressão da fase atual do capitalismo, na qual, grosso modo, existem países dos centros imperialistas e os dependentes. Nessa relação, centraremos nosso combate ao imperialismo dos EUA, que continua sendo o principal e mais agressivo centro imperialista, e seus aliados mais diretos, como hoje é o Reino Unido. Isso se configura tanto em termos de suas ações no contexto internacional, como nas relações de dependência e intromissão na política brasileira. Nesse quadro, se inserem também potências militares regionais mais agressivas como o estado sionista de Israel.
123. Devemos manter nosso combate aos outros centros históricos do imperialismo localizados na Europa e no Japão, mas sem deixar de esclarecer sobre o caráter capitalista e imperialista que a China vem exercendo no período mais recente. Nota-se esse processo inclusive no caso do Brasil, reproduzindo a dependência, desindustrialização, desnacionalização e privatização de nossa economia e as relações de superexploração do trabalho, destruição ambiental e reforço do poder econômico e político do agronegócio e da mineração. Isso inclui seu principal aliado, que hoje é a Federação Russa.
A partir de todas as questões postas, sintetizamos a nossa linha de ação:
Solidariedade internacional às lutas dos povos explorados contra seus governos e suas burguesias;
Lutar contra a ofensiva do capital contra o povo trabalhador, as extremas-direitas e o neofascismo internacional;
Combate às agressões e opressões de caráter nacional; em defesa da soberania nacional e não ingerência das potências nas questões nacionais;
Defesa da coexistência pacífica entre estados; que o povo não seja bucha de canhão nas guerras dos interesses imperialistas;
Enfrentamento a todas as formas de opressão;
Apoio aos processos revolucionários populares;
Travar lutas e campanhas internacionalistas;
Demarcar posições com o social-liberalismo e o reformismo conciliador de classes;
Unidade do povo trabalhador e oprimidas/os para enfrentar a direita, o ultraliberalismo, o conservadorismo e as vertentes neofascistas;
Construir uma alternativa verdadeiramente de esquerda no Brasil e no mundo!
Nessa jornada, cabe às revolucionárias e revolucionários construírem as ferramentas sociais, culturais e político-partidárias necessárias à revolução socialista em cada país e, em nível internacional, articulações e fóruns que permitam interação, intercâmbio político e teórico e ações conjuntas.
Nossa luta é anti-imperialista e internacional, portanto:
Palestina Livre! Chega de genocídio patrocinado pelo estado sionista de Israel!
Trump, tire as garras da América Latina!
Por um acordo de paz justo na Ucrânia!
Combater a ação destrutiva do capital, em defesa do meio ambiente e pelo ecossocialismo!
Fortalecer a Resistência Popular contra o capital, o imperialismo e todas as opressões! Trabalhadores, oprimidas e oprimidos de todo o mundo, uni-vos!
Abaixo o Imperialismo e Pelo Socialismo! Ousando Lutar, Venceremos!
IX ENAPS – ENCONTRO NACIONAL DA APS – Ação Popular Socialista
São Paulo, 30/10 a 2/11 de 2/11 de 2025.










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