A masculinidade é tóxica: o caso de Itumbiara (GO)

Por Robson Bastos

Vejo muita gente fazendo diferentes análises sobre o caso do homem que matou os filhos e depois se matou por não aguentar ter sido traído pela esposa. Contudo, não vejo ninguém fazer uma análise sobre esse caso usando como referência a masculinidade tóxica. Casos como esse são devastadores e, embora pareçam explosões de “loucura” momentânea, geralmente são o desfecho trágico de uma construção social profunda sobre o que significa “ser homem” em uma sociedade patriarcal.

Para analisar essa tragédia sob a ótica da masculinidade tóxica, precisamos olhar para além do crime e focar na estrutura de poder e posse em que a maioria dos homens é forjada. Na estrutura da masculinidade tóxica, a identidade do homem muitas vezes não está no “ser”, mas no “ter”. Ele é educado para ser o provedor e o detentor da autoridade máxima. Neste contexto, a esposa e os filhos não são vistos como indivíduos com autonomia plena, mas como extensões do ego do homem. Portanto, quando a esposa trai, no código dessa masculinidade, ela não está apenas rompendo um pacto afetivo; ela está “quebrando” a propriedade dele e desafiando sua soberania.

É importante lembrar que o homem é socialmente incentivado à “virilidade” (que muitas vezes inclui a conquista de várias mulheres), enquanto a mulher é educada para a castidade e fidelidade. Mas por que muitos homens não aceitam a ideia de ser traídos se eles “podem” (teoricamente) fazer o mesmo? Isso acontece porque a traição masculina é vista por esse sistema como um “deslize biológico” ou afirmação de poder. Já a traição feminina é lida como uma desonra pública para o marido. Para o homem tóxico, ser traído significa ser “menos homem” diante dos outros. Ele sente que perdeu o posto de “macho alfa”, e o ego ferido busca uma compensação que, em casos extremos, se traduz em violência letal para “limpar a honra”.

Matar os filhos e a si mesmo é o estágio final da perda total de controle. Ao matar os filhos, o agressor inflige à mulher a dor mais profunda possível. É o ato final de um egocentrismo extremo onde “eu decido quem vive e quem morre no meu domínio”. O suicídio, nesse contexto, não costuma ser um ato de arrependimento, mas de fuga e de manutenção do controle sobre o próprio fim. Ele decide encerrar o “espetáculo” antes de ser julgado ou punido pela sociedade, como se não bastasse, ainda coloca a culpa de seu ato criminoso na mulher para que ela seja julgada socialmente, como de fato está.

A masculinidade tóxica ensina que homens não sentem dor, luto ou rejeição; homens sentem raiva. Se ele se sentisse apenas triste, ele pediria o divórcio e choraria, mas como ele só tem permissão social para sentir raiva, ele transforma a dor da rejeição em um ato de destruição. Enquanto o homem for ensinado que seu valor depende do controle que ele exerce sobre a vida e o corpo de uma mulher, o lar continuará sendo o lugar mais perigoso para elas. A masculinidade tóxica aprisiona o homem em uma armadura de silêncio emocional, onde a vulnerabilidade é proibida e a única resposta aceitável para a frustração é o domínio.

Desconstruir essa masculinidade não é um ataque a sua condição de ser homem, mas um caminho para a sua evolução enquanto ser humano. É preciso entender que a honra não reside no controle, mas na humanidade. O combate a violência doméstica começa quando cada homem decide que não é dono de ninguém — e que ser homem não é ser um soberano, mas ser capaz de lidar com a própria dor sem destruí-la no outro.

Por fim, é importante lembrar que a traição é um problema relacional, muito baseado na ideia do amor romântico e em crenças religiosas, mas a violência é uma escolha baseada em uma crença de superioridade. Milhares de pessoas são traídas diariamente e não cometem crimes; o diferencial aqui é a crença de que a vida dos outros lhe pertence.

Homens, fica o convite à reflexão: até que ponto o seu ego depende da submissão alheia?

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