Combater o sionismo no Oriente médio e em todo o mundo!
Resolução da Coordenação Nacional da Ação Popular Socialista (APS/PSOL) | Abril de 2026
Introdução
- Os conflitos mundiais intensificados no governo Trump 2 não são fatos isolados. Precisam ser entendidos num cenário mais amplo: a persistência da crise estrutural múltipla do capitalismo e a polarização interimperialista. Guerra comercial e tecnológica, guerra ao Irã, à Groenlândia e à América Latina – como os ataques à Venezuela, a Cuba, a instalação de uma base militar no Paraguai, um controle mais rigoroso do canal do Panamá, sanções e pressões sobre o Brasil e provocações do Equador sobre a Colômbia. Nesse contexto global também estão a expansão e crise da OTAN, os conflitos da invasão russa na Ucrânia e o aprofundamento das tensões internas na União Europeia. Destaca-se a luta incondicional contra o expansionismo israelense no Oriente Médio — notadamente o genocídio em Gaza, a invasão do Líbano e a guerra ao Irã.
A Situação da Guerra dos EUA e Israel contra o Irã
2. A guerra atual no Oriente Médio é uma ação conjunta dos Estados Unidos (EUA) e de Israel, duas potências que, apesar de compartilharem interesses comuns, possuem objetivos distintos e, por vezes, contraditórios.
3. Ao mesmo tempo, para os EUA, essa ofensiva militar tinha também um objetivo fora do terreno militar: a China, que é o principal foco das ações do governo Trump na disputa interimperialista que os EUA têm contra a potência asiática.
4. Essa aliança imperialista-sionista tem uma forte superioridade em relação ao Irã. Entretanto, mesmo com essa desigualdade de poder econômico, tecnológico e militar, o Irã também tem alguns recursos importantes para resistir. Tem vasta extensão territorial, uma população de aproximadamente 93 milhões e forças armadas robustas. Tem uma experiência de resistência histórica e contemporânea, e tem se mostrado um oponente estrategicamente muito competente. O país não apenas desenvolve suas próprias capacidades de defesa, como a produção interna de drones e mísseis modernos e eficientes, mas também mantém um sistema de defesa eficaz que dificulta a ação militar dos agressores.
5. Historicamente, o Irã demonstrou uma combatividade notável ao derrotar várias invasões, incluindo a guerra contra a Invasão do Iraque, entre 1980 e 1988 (que teve apoio dos EUA e da Rússia-URSS, além outros países) saindo-se vitorioso, e a recente “Guerra dos 12 dias”, quando enfrentou as forças de Israel e dos EUA, conseguindo sustentar suas fronteiras intactas e preservar seus recursos militares e sua tecnologia de enriquecimento de urânio.
6. Contudo, a situação interna do país é complexa e repleta de desafios. O regime iraniano enfrentava um crescente descontentamento popular, alimentado por problemas econômicos e sociais e de oposição, mais ativamente das mulheres e da juventude que não aceitam muitas coerções do regime teocrático. As manifestações populares mais recentes, muitas vezes reprimidas de maneira violenta, causando milhares de mortos, feridos e presos, acabaram sendo usadas pelos EUA e Israel, buscando desestabilizar o governo/regime. Mas o regime mostrou que ainda tinha importante base social e poder de coerção sobre os setores de oposição.
7. Portanto, o projeto de Israel de expansão e controle do Oriente Médio é inteiramente compatível com os objetivos imperialistas dos EUA. Desde o primeiro governo, Trump já vinha trabalhando nos Acordos de Abraão, que busca a neutralização dos países muçulmanos sob os interesses sionistas, apesar da intensificação da ocupação colonial na Cisjordânia e do cerco a Gaza. Como o Irã é o país que mais ameaça o projeto expansionista de Israel, por sua própria força e de seus aliados Hezbollah, no Líbano, Hamas na Palestina e Houthis no Yemen, há bastante tempo Israel vem tentando convencer qualquer presidente dos EUA a empreender um ataque devastador ao Irã, independentemente de qualquer acordo que venha limitar o programa nuclear iraniano para fins civis. Obama avançou em um acordo com o Irã, que suspendia as sanções e limitava o enriquecimento de Urânio pelo Irã em 4% ─ acordo o qual Israel sempre foi contra. Trump, que se elegeu dizendo que seria o melhor amigo que Israel jamais teve, rompeu o acordo com o Irã e retornou à aplicação de duras sanções, além de ameaças constantes.
8. O governo Biden buscou avançar com os Acordos de Abraão, mas só o que obteve foi a reação do Hamas e o agravamento da situação na Palestina, com o início do genocídio em Gaza, que se aprofundou no governo Trump. Durante a campanha, Trump anunciava que resolveria a questão de Gaza e do Irã diplomaticamente, e que em seu governo o Irã “não seguiria sendo” uma ameaça a Israel. Um dia antes de sua posse, impôs um “cessar-fogo” em Gaza, precário e sem a participação de palestinos nem de Israel, que permitiu que os sionistas continuassem seus ataques. E seguiu ameaçando o Irã. Israel estava totalmente concentrado em destruir Gaza e se apossar do território, além de ampliar violentamente a colonização da Cisjordânia. A queda do governo ditatorial de Assad na Síria abriu uma oportunidade para Israel avançar nas Colinas de Golã e contar com um governo colaboracionista, aberto a acordos com os EUA. O Yemen foi bombardeado e seu governo assinou um acordo. O Iraque segue sendo um país destroçado pelas guerras provocadas pelos EUA, onde ainda atuam grupos diversos, mas sem condição de organizar uma resistência efetiva.
9. Assim, Israel focou em novos ataques ao Irã e intensificou os ataques ao Hezbollah no Líbano, onde também havia um acordo, mas não se obteve o desarmamento do Hezbollah. Na Guerra dos 12 dias, Israel contou com a ajuda dos EUA para atingir fortemente as usinas nucleares do Irã com bombas que alcançam profundidades e instalações subterrâneas. Como não havia provas efetivas de que tinha conseguido atingir seus objetivos, Israel seguiu pressionando. Com a imposição por Trump de novo cessar-fogo e a farsa de um acordo em Gaza, o estado sionista ainda segue no domínio de mais da metade do território, violando cotidianamente a trégua. No Irã, Israel aprofunda a infiltração do Mossad para buscar uma “mudança de regime”, aproveitando-se de uma insatisfação popular real com o governo, amplificada pelo ataque especulativo à moeda local.
10. Empolgado com a mudança de regime obtida na Venezuela, com sequestro e prisão de Maduro sem muito esforço e gastos militares e com a situação imediata de crise interna no Irã, Trump se iludiu, assim como Netanyahu, com a chance de atender facilmente os objetivos de Israel e seus próprios objetivos estratégicos contra o Irã e a China, buscando uma decapitação rápida do regime iraniano enquanto ainda aconteciam negociações em Omã. Isso suspostamente deixaria o Irã sem condições de reagir e aberto a que “massas oposicionistas” tomassem o poder. Chegaram até a discutir opções sobre quem alçariam ao governo – e aventaram o filho do Xá RezaPahlavi, exilado nos EUA.
11. A decisão de Netanyahu e Trump menosprezou o apoio interno que o regime ainda tem, seu arsenal militar e poderio tático ainda bastante relevantes e sobretudo a galvanização de forças que o Irã poderia mobilizar diante do ataque de um inimigo externo. Nem sequer consideraram a possibilidade de o Irã fechar o estreito de Ormuz – o que diz muito da arrogância imperialista dos EUA e Israel. Não se atentaram para a falta de um plano minimamente sustentável caso a guerra prosseguisse além do tempo esperado, aumentando o desgaste nos EUA, porque simplesmente não contaram com isso.
12. De fato, fizeram um ataque forte no primeiro momento, assassinando o Aiatolá Khamenei sua família e algumas das principais lideranças da Guarda Revolucionária. Mas, nesse mesmo dia, bombas dos EUA mataram também 150 crianças em uma escola, o que gerou repúdio internacional. A possibilidade de grandes perdas humanas não foi considerada, entrando na conta de “danos colaterais”, mas as guerras começam a ser perdidas pela rejeição da opinião pública. Imediatamente, o Irã fechou o Estreito de Ormuz e começou a atingir bases e interesses estadunidenses nos países do golfo, atingindo oleodutos, gasodutos e aeroportos da região, afetando duramente os negócios. Foi forte a reação também sobre Israel, que, apesar de seu escudo de proteção antiaérea, também teve mais mortes e prejuízos do que esperava.
13. Com a reação do Irã e a evidência do erro de cálculo de Trump, o efeito na economia se espalhou rapidamente, contaminando as expectativas do mercado com a avaliação de que a guerra estava fora de controle. Os preços do barril de petróleo saltaram, gasolina e diesel subiram imediatamente nos EUA, Bolsas caíram, dólar também, o mercado futuro passou a apontar subida na inflação e nos juros. Vários países em torno do Golfo Pérsico aliados dos EUA tiveram estruturas atingidas, como reação direta do Irã. O Líbano também foi arrastado para a guerra; o Hezbollah, diante dos violentos ataques que tem sofrido historicamente de Israel e em solidariedade ao Irã,lançou alguns foguetes contra Israel, que respondeu com ataques violentos e desproporcionais ao sul do Líbano e Beirute. Depois de um mês de guerra, os prejuízos se intensificam, e Trump se viu sem ter como sair desse atoleiro sem admitir o fracasso dos objetivos da coalizão EUA-Israel. A decisão foi conjunta, mas o prejuízo político com aumento da rejeição é majoritariamente de Trump, porque em Israel a guerra contra o Irã e o Líbano segue tendo amplo apoio e é vista como “a mãe de todas as guerras” para seu projeto existencial.
14. A incompetência do gabinete imediato de Trump, com assessores incapazes de alertar para os riscos dessa aventura de guerra sobre a economia e, no limite, sobre o risco à própria sobrevivência política, só acentua a percepção de declínio relativo do imperialismo estadunidense. A decisão de Trump, em conjunto com Israel, de promover um novo ataque ao Irã abalou a base de apoio de seu governo, pois a maioria da população dos EUA, ao contrário de Israel, rejeita essa guerra e seus custos e não vê no Irã uma ameaça. Esse abalo também pode ser devido à intensificação da crise econômica no mundo e nos EUA especialmente – e a aceleração do relativo declínio de seu império, já que do outro lado está a China como vitoriosa, tendo agido silenciosamente e intervindo para Irã aceitasse a trégua proposta pelo Paquistão. E isso sem que Israel ou EUA tenham conseguido obter seus alardeados objetivos de mudança de regime no Irã ou mesmo garantias de que o programa nuclear do Irã não possa ser retomado.
15. É preciso também ressaltar que o projeto de Israel envolvia também destruir o Hezbollah, ainda que isso implicasse destruir boa parte do Líbano, incluindo a região sul da capital e os vilarejos ao sul do país, onde residem os xiitas (ramo da religião islâmica do Hezbollah), assim como a destruição da infraestrutura dessa região. Ocupar territórios do Líbano sempre esteve nos planos explícitos de Israel. Em um mês de ataques, foram mais de dois mil mortos no Líbano, e um milhão e meio de pessoas deslocadas. A destruição maior no Irã e a subida no preço do barril de petróleo captaram a maior parte da atenção da mídia, desviando o foco da destruição no Líbano, chegando a mais de 300 mortes em um só ataque, destruição de hospitais, intensificação dos deslocamentos, morte de crianças, jornalistas e socorristas – uma catástrofe humanitária. Isso sem mencionar o apagamento na mídia de que os ataques em Gaza e na Cisjordânia seguem acontecendo, ainda que em menor escala. Netanyahu e Trump normalizaram o genocídio. Trump ameaçou destruir numa só noite toda uma civilização no Irã, “de maneira que nunca mais possa ser reerguida”. Ainda que seja dado a exageros retóricos, uma ameaça de genocídio, que só poderia ser perpetrada de uma vez por ataque nuclear, não deveria ser naturalizada e muito menos passar impune. É preciso cobrar reparação de toda a destruição causada e punição aos crimes de guerra.
16. Donald Trump e Benjamin Netanyahu, ao tomar a iniciativa dos ataques militares, esperavam explorar essa insatisfação interna para potencializar a crise, mas acabaram contribuindo para a resistência do regime iraniano. Os ataques direcionados ao assassinato do líder supremo, Ali Khamenei, lideranças políticas e comandantes militares, embora tenham sido destrutivos, resultaram em uma resposta interna mais coesa e determinada, reforçando a unidade do governo e do povo frente às ameaças externas.
17. O Irã, apesar de sofrer danos significativos devido à superioridade militar de seus adversários, tem demonstrado uma grande capacidade estratégica e tática em contra-atacar e resistir ao avanço das forças dos EUA e de Israel. Conseguiu quebrar o discurso ideológico israelense de ser intocável, e gerou uma repercussão global ao bloquear o Estreito de Ormuz, que se tornou um ponto crítico de confronto, e atacar bases militares dos EUA em território de seus aliados na região. O regime iraniano, apesar de ser uma teocracia, esta é, em parte, negociada com a participação institucional civil. Mantém um parlamento com bancadas consideradas tanto “radicais” como “moderadas” e um presidente recém-eleito do campo chamado “moderado”. Durante a guerra revelou uma grande coesão.
18. No terreno militar estrito senso, esta guerra mostrou novas características (que em parte já tinham aparecido na guerra Rússia x Ucrânia) que apontam mudanças em termos táticos e estratégicos.
19. Paralelamente, aproveitando a situação, Israel avança com políticas de colonização na Cisjordânia, ocupações no Líbano e agressões contínuas em Gaza. A retórica de Trump, que oscila entre declarações de que a guerra está terminando e a busca por justificar uma agressão mais direta também contra Cuba, reflete uma política ziguezagueante, as contradições na sua política externa e as resistências internas nos EUA contra essas guerras. Ele busca reagir ao sentimento da opinião pública de que os EUA estão perdendo a guerra contra o Irã.
20. Como citamos acima, a guerra entre os EUA-Israel e o Irã não pode ser vista isoladamente, pois é parte de uma disputa geopolítica mais ampla, com China, questão que não pode ficar fora de qualquer análise e balanço da guerra. O Irã é o terceiro fornecedor de petróleo à China, com 14% das importações, atrás apenas da Arábia Saudita e da Rússia. Mas parte significativa das exportações de petróleo do Irã vão para a China via Malásia.
21. Os objetivos dos EUA visando mudança de regime, derrubada do governo ou colocá-lo sobre o domínio dos EUA (como aconteceu na Venezuela) não obtiveram o sucesso desejado, o que é uma derrota para Trump e os EUA – mesmo sabendo que o Irã também teve perdas importantíssimas na guerra, está alcançando seus objetivos principais: manter seu território sem ocupações estrangeiras, sua soberania estatal e seu regime.
22. Além disso, o Irã permanece como um elemento chave nas dinâmicas de relação com a China, que continua sendo atendida na sua demanda das importações de petróleo iraniano e mantendo relações estratégicas com vistas a seu expansionismo econômico e geopolítico via a Nova Rota da Seda. E, além de sair incólume dessa guerra, continuou avançando seus objetivos estratégicos tecnológicos e, inclusive de exportações, apesar dos bloqueios protecionistas de Trump. Assim, em meio ao conflito, a China pode ser considerada uma grande vencedora.
23. A crescente rivalidade entre essas potências, entretanto, não parece apontar para o desencadeamento de uma terceira guerra mundial, mas sim reflete uma “guerra fria” em curso, marcada por tensões constantes e estratégias de contenção. Portanto, a perspectiva de uma paz duradoura na região é, no momento, inviável.
24. O suposto “acordo de paz” na Palestina foi detonado por Israel, assim como a presente “trégua” com o Irã. Os termos de eventuais acordos propostos pelo Irã e pelos EUA (com o silêncio ardiloso de Israel), não serão aceitos pelo lado oposto. Assim sendo, mesmo se Irã, EUA e Israel chegarem a fazer concessões mútuas para chegar ao fim da atual guerra, ainda assim não será uma pacificação regional permanente enquanto continuarem as disputas geopolíticas na região num contexto mundial da disputa interimperialista.
25. Enquanto Israel insistir em sua ambição expansionista da Grande Israel e a bipolarização interimperialista continuar, a dinâmica de conflitos geopolíticos na região continuará a dificultar a formação de acordos estáveis e sustentáveis, perpetuando um ciclo de hostilidades que tem se mostrado difícil de romper.
26. A complexidade dos interesses entrelaçados conflituosamente e a capacidade do Irã se defender sugerem que, em um futuro próximo, as tensões provavelmente continuarão a dominar a cena geopolítica, econômica e militar do Oriente Médio.
27. Além disso, o desgaste do regime sionista-fascista de Israel tem ultrapassado fronteiras também por causa do comportamento de soldados israelenses em outros países onde passam férias. Como é caso de praias do Brasil, particularmente na Bahia. Nesse sentido, propostas institucionais de impedir a entrada no país de soldados israelenses envolvidos em genocídio (crime de guerra), como a que foi apresentada pelo Deputado Hilton Coelho, precisam ser impulsionadas. Isso demonstra que a luta contra o sionismo e o fascismo, além de ser um ato de solidariedade indispensável ao povo palestino e de todo o Oriente Médio, é uma luta que está bem perto de nós.
Elementos-Chave da Situação Internacional
28. Os elementos que compõem a situação internacional atual têm as seguintes características, cujo entendimento é fundamental para compreender os fatos mais explosivos e o impacto dessas dinâmicas em nosso futuro.
29. O cenário internacional caracteriza-se pelo prolongamento e exacerbação da crise estrutural do capitalismo, que se desenvolve desde a década de 1970 e se tornou uma crise múltipla: econômica, financeira, ambiental, energética, alimentar e sanitária.
30. A bipolarização interimperialista agravou-se desde o primeiro mandato de Trump, evoluindo sob a administração Biden e agora com o segundo mandato de Trump. Os principais elementos da crise atual refletem essa disputa, que gira em torno da posição de Trump de que os Estados Unidos reajam de modo mais agressivo ao ascenso de uma potência imperialista rival: a China e seus aliados.
31. A guerra comercial, a guerra ao Irã, o ataque à Venezuela, o cerco a Cuba, as ameaças à Groenlândia e à América Latina (com instalação de a base militar no Paraguai, maior controle do canal do Panamá, provocações do Equador contra a Colômbia) e o apoio irrestrito ao expansionismo israelense no Oriente Médio — incluindo o genocídio em Gaza —, os acordos com países muçulmanos (incluindo o novo governo da Síria), tudo isso se encaixa neste marco. Da mesma forma, a expansão da OTAN e a guerra por procuração que está sendo travada desde a invasão da Rússia — a qual já condenamos.
32. Inclusive as tentativas de Trump de pacificar as mesmas guerras que os Estados Unidos fomentaram — como a guerra na Ucrânia, o genocídio em Gaza e a guerra de Israel contra o Irã — são formas de reafirmar o poder imperialista dos EUA, que se encontra em relativo declínio.
33. Esse fenômeno não se limita a uma disputa política, mas inclui uma guerra pela liderança tecnológica, na qual nações e corporações monopolistas se enfrentam, impulsionando suas moedas e sua posição no comércio internacional.
34. Além disso, enfrentamos uma crise ambiental cada vez mais profunda, manifestada na emergência climática do aquecimento global e na destruição da biodiversidade. O fracasso das abordagens ecocapitalistas para resolver esses problemas destaca a necessidade de mudanças profundas, anticapitalistas. É imperativo que a tecnologia não seja considerada apenas uma ferramenta, mas uma aliada na construção de um futuro sustentável, que respeite os limites do nosso planeta, o que só será possível dentro de um projeto ecossocialista.
35. Ao mesmo tempo, o capitalismo continua lançando seus ataques contra os trabalhadores em diversas frentes, seja de forma liberal ou conservadora, ou em uma articulação entre neoliberalismo e conservadorismo. O autoritarismo da extrema direita, especialmente das forças neofascistas, atua fora ou dentro dos governos, intensificando ataques que afetam especialmente os setores oprimidos por questões de gênero, raça, etnia e a população LGBTQIA+. Essa opressão é um fenômeno internacional.
36. A guerra pelo domínio tecnológico e o auge das big techs estão criando um cenário de perigo crescente, especialmente com a aliança dessas corporações com a extrema direita. Isso ocorre porque a tecnologia, que poderia ser uma ponte para o desenvolvimento humano, é também um campo de batalha ideológico e estratégico, e um espaço para a luta hegemônica.
37. Atualmente, os conflitos militares “localizados” e “regionalizados” se intensificam, contribuindo para uma corrida armamentista que gera inquietude e mal-estar global. Esses conflitos, alimentados por interesses econômicos, políticos e geopolíticos, evidenciam a interconexão entre as crises locais e as disputas interimperialistas.
38. Mesmo diante de um cenário tão desafiador, a resistência popular – em solidariedade à Palestina em todo o mundo, nos EUA contra as agressões do ICE (força repressiva de controle migratório estadunidense) sobre os imigrantes, lutas por direitos e manifestações antifascistas – mantém-se viva e difundida em todos os continentes. Essa mobilização, embora marcada pela falta de unificação e pela fragilidade da liderança política revolucionária, é um sinal de esperança. As vozes que ressoam nos protestos e manifestações insistem em nos lembrar que a luta por um futuro mais justo, igualitário e socialista é possível.
Desenvolvimento do Imperialismo e seu momento atual
39. A crise estrutural do capitalismo é uma crise do imperialismo, que, segundo Lenin, é um estágio superior do capitalismo. No final do século XIX, era um imperialismo multipolar, ligado à 2ª Revolução Industrial. Após a 2ª Guerra Mundial, os EUA tornaram-se a principal potência imperialista, numa fase marcada pela bipolarização com a URSS. A terceira fase surge na década de 1970, com a crise estrutural do capitalismo, a financeirização fictícia, o neoliberalismo, a intensificação das exportações de capitais para novos territórios, a chamada globalização, culminando na queda da URSS e na conversão da China ao capitalismo, tornando os EUA um centro imperialista hegemônico unipolar.
40. A partir do século XXI, essa fase do imperialismo neoliberal, da financeirização fictícia e do chamado “globalismo” também entra em crise. Ao passo que com a emergência da China e a reorientação política da Rússia, sob a direção de Putin, formou-se um novo bloco imperialista liderado por esses dois países, desafiando a unipolaridade dos EUA. Processo consolidado durante crises econômicas, o declínio dos EUA, a crise na União Europeia, o expansionismo chinês e a guerra na Ucrânia.
41. Para combater a crise do capitalismo neoliberal, o capital ocidental recorreu ao neokeynesianismo, embora sem restaurar os direitos do Estado de Bem-Estar Social. O aumento do autoritarismo e da destruição ambiental. As potências imperialistas, como os EUA, tentam conter os avanços chineses a partir do governo Trump 1 e continuando sob Biden, com estratégias de aliança entre as potências imperialistas históricas e bloqueios econômicos.
42. O comércio mundial tem visto um crescimento no uso de moedas alternativas ao dólar, como o yuan, visando reduzir a hegemonia do dólar, enquanto a China se destaca como um importante exportador de capitais.
43. A estratégia de Biden visava unir os aliados do passado imperialista para enfrentar os desafios econômicos e tecnológicos, mas não conseguiu impedir o progresso da China. O governo Trump 2 é uma tentativa de reverter a situação. Mas os resultados até aqui não são promissores para os EUA.
As particularidades do imperialismo chinês
44. Com a revolução popular e a conquista do poder em 1949, a China iniciou um processo de transição ao socialismo. Mas, a partir de 1978, a China mudou sua estratégia, adotando reformas pró-mercado e abertura ao capitalismo tanto internamente como na política externa. Resultando em um capitalismo nacional e imperialista com características chinesas que, hoje, é a maior economia mundial.
45. A China busca liderar blocos econômicos através de projetos de longo prazo em energia, infraestrutura e transportes, utilizando créditos do setor privado e estatal. Isso contribui para a formação de um novo polo de poder alternativo ao imperialismo estadunidense, o qual está em declínio.
46. Porém, esse imperialismo, embora diferente dos EUA, não altera os desequilíbrios e desigualdades sociais, especialmente de classe, internas à China, nem tampouco em suas relações internacionais, mantendo os países periféricos dependentes da produção e exportação de bens primários e importação de bens de alto valor tecnológico.
47. Quando a China investe em países dependentes por meio de empréstimos ou investimentos diretos, transfere valor para sua própria economia, perpetuando a superexploração do trabalho, a destruição ambiental, e a dependência tecnológica e financeira dos países da periferia.
48. Politicamente, a China age de maneira menos agressiva que os EUA, evitando imposições ideológicas e culturais para integrar os países à sua cadeia capitalista. Assim, o imperialismo chinês se desenvolve de maneira pragmática e focando em negociações que favorecem os capitais e interesses geopolíticos chineses e às burguesias e elites políticas dos outros países.
49. Embora imponha pressões econômicas e diplomáticas quando necessário, não recorre à intervenção militar, buscando relações que assegurem vantagens econômicas e geopolíticas para seu projeto, mesmo isso acabe sustentando regimes de direita e extrema-direita e políticas neoliberais (como veremos ao final).
As veias da América Latina e os ataques de Trump
50. Na América Latina continua havendo um revezamento de governos, entre aqueles do tipo genericamente considerados neodesenvolvimentistas e tidos como de centro-esquerda (que não romperam, entretanto, com o neoliberalismo) e aqueles da direita liberal ou ultraliberal e de extrema-direita. Mas agora temos um avanço da extrema-direita dentro da direita em geral, que vem ganhando eleições em diversos países onde antes o revezamento de governos da centro-esquerda era com a direita clássica neoliberal.
51. De 2021 para cá, saiu a direita tradicional do Chile e voltou uma centro-esquerda neoliberal através de Gabriel Boric, mas as eleições de 2025 trouxeram a extrema-direita de José Antônio Kast, um neto de nazistas e defensor de Pinochet. Em 2022, Gustavo Petro foi eleito o primeiro presidente considerado de esquerda na Colômbia. Até o momento, o candidato da coalizão governista Ivan Cepeda lidera pesquisas para as eleições presidenciais no final de maio de 2026. Na Colômbia não há reeleição, mas é possível que o enfrentamento a Trump tenha favorecido internamente a popularidade de Petro a ponto de que ele eleja o sucessor, apesar das limitações de seu governo.
52. No final de 2022, um golpe de estado via parlamentar, derrubou o presidente do Peru, Pedro Castillo, eleito com um programa e apoio da esquerda, colocando no governo sua vice, para aplicar um programa da direita neoliberal e autoritária; em seguida, um novo golpe dentro do golpe derrubou a golpista e reforçou as posições da extrema-direita. Um novo governo de extrema-direita ascendeu, por meio do presidente do Congresso, e foi em seguida derrubado. A facilidade que o Congresso encontra para derrubar governos no Peru, bastando uma reunião que aprove “incapacidade do presidente”, mesmo sem processo, torna o Peru um país difícil de governar, entre vários outros problemas políticos. Vários candidatos pedem uma assembleia constituinte para uma reforma total do sistema. Atualmente o país passa por eleições gerais; a candidata da extrema-direita Keiko Fujimori, filha do ex-ditador, é tida como a favorita (apesar de ter obtido apenas 17% dos votos no primeiro turno), mas também há candidatos de centro-esquerda e direita clássica no páreo. A votação foi contestada e está havendo recontagem, mas há candidatos que já anunciam que não reconhecerão o resultado.
53. No Brasil, em 2023, saiu o neofascista Bolsonaro e voltou Lula da Silva. Com Bolsonaro preso, estamos próximos a novas eleições em que a disputa será novamente de Lula contra a extrema-direita, encarnada pelo filho de Bolsonaro, portanto o neofascismo ainda é forte e ameaça voltar à presidência, mesmo tendo sido punido amplamente após uma tentativa de golpe.
54. Na Argentina, o kirchnerista Alberto Fernandes terminou o mandato em meio a uma crise, e foi eleito o neofascista Javier Milei, que, apesar de um péssimo governo, conseguiu vencer as eleições para uma parte das cadeiras parlamentares em 2025. Mas a crise econômica na Argentina segue corroendo a popularidade de Milei, com enormes manifestações contra sua política acontecendo em todo país.
55. Em 2024, a direita conservadora no Uruguai terminou o mandato e retornou a Frente Ampla, considerada de centro-esquerda. Em 2020, o neodesenvolvimentismo do MAS da Bolívia já havia voltado ao governo substituindo os golpistas de extrema-direita que derrubaram Evo Morales em 2019. Porém, em 2025, aproveitando uma profunda divisão da centro-esquerda boliviana, a direita volta à presidência pela via eleitoral, com Rodrigo Paz, sem que o candidato do governo tenha sequer disputado o segundo turno.
56. Conforme já desenvolvemos em mais de uma resolução anterior, esse “revezamento” acontece porque nenhuma dessas forças consegue governar de modo estável, enfrentando e superando os grandes problemas nacionais e a dependência econômica mais geral desses países ao imperialismo. Somente um processo revolucionário que fosse capaz de romper a dependência e promover uma radical melhora nas condições de vida do povo trabalhador de seus países, em transição ao socialismo, poderia quebrar esse contexto de instabilidade e seguidas crises.
57. Portanto, temos agora exemplos contraditórios, nas três principais economias da América do Sul, como a derrota eleitoral da extrema-direita no Brasil e sua vitória na Argentina, ao passo que, pela primeira vez em muitos anos, chegou ao governo colombiano uma das forças da esquerda do espectro político. Além disso, houve a importante reeleição de Claudia Sheinbaum no México, mantendo o governo em um campo de “centro-esquerda”.
58. O novo governo Trump vem com discurso e medidas claramente anti América Latina. É a volta do velho imperialismo da “Doutrina Monroe” do presidente Monroe, que em 1823 declarou que a “América é dos americanos” (EUA), e do “Destino Manifesto”, discurso do presidente James Buchanan que na sua posse em 1857 afirmou que o destino os EUA era se expandir por toda a América, do Ártico até a América do Sul. A deportação violenta de imigrantes latino-americanos, a pretensão de reinvadir o Canal do Panamá, o muro de fronteira, os ataques ao México e seu povo, a taxação de mercadorias, o cerco a Cuba e a invasão da Venezuela, com o sequestro de seu presidente, são apenas alguns exemplos.
59. Com o segundo governo Trump, três grandes ameaças e ataques foram lançados à América Latina. A primeira dessas ameaças é o cerco a países considerados hostis (ou alinhados com a China), como Cuba e Venezuela. A segunda ameaça é a implantação de bases militares em países colaboracionistas da tática de Trump, como Paraguai e El Salvador, sob o governo de extrema-direita Nayib Bukele, que também aceitou receber deportados dos EUA em suas prisões gigantescas, comparadas a masmorras, onde supostos traficantes e imigrantes dos EUA presos a mando de Trump são jogados sem direito a julgamento e a qualquer noção de Direitos Humanos. No Equador um plebiscito rechaçou essa intenção do presidente de direita Daniel Noboa de estabelecer base militar, mas em compensação a Trump, Noboa vem estabelecendo disputa e ataques à Colômbia.
60. A terceira ameaça de Trump à América Latina é a designação de “narcoterroristas” a quadrilhas de tráfico de drogas, para que os EUA tenham o pretexto de atacar embarcações, ameaçar e invadir países tidos como hostis, supostamente coniventes com o tráfico, sem autorização do congresso e nem mesmo a concordância do país com o qual estaria supostamente atuando em conjunto. A ascensão de governantes de extrema-direita em vários países da América Latina, ou mesmo a colaboração de governos da direita clássica (como Santiago Peña, do Colorado, no Uruguai) favorecem a estratégia de Trump. Foi o que aconteceu na Venezuela, depois de um grande cerco no Caribe, com dezenas de embarcações atacadas, seguida por invasão e sequestro do presidente Maduro (sob acusação absurda de chefiar narcoterrorismo) e imposição do governo colaboracionista de Delcy Rodrigues, que vem aprovando com subserviência as demandas dos EUA. Foi o que Trump ameaçou fazer na Colômbia, mas foi contido por grande mobilização popular e reunião com Petro da Casa Branca. Está claro que o combate ao “narcotráfico” é mero pretexto para conter opositores da doutrina de exigência de alinhamento, pois Cuba não pode ser apontada nem como produtora nem como comercializadora de drogas, mas está sob cerco mesmo assim, por decisão de Marco Rúbio, o ideólogo dessa estratégia. As ameaças seguem reiteradas para todo o continente a cada rompante de contrariedade de Trump, com recados violentos e impunes de que “Cuba é a próxima”.
Soberania Nacional, anti-imperialismo e subsoberania
61. As relações internacionais historicamente moldam países dependentes, especialmente em um contexto de crise do capitalismo. No Brasil, isso afeta decisões governamentais e movimentos sociais.
62. O discurso sobre imperialismo se intensificou após as políticas da era Trump, mas a “política soberana” promovida tem sido uma defesa de subsoberania, não uma luta anti-imperialista verdadeira. Países da periferia continuam subordinados ao grande capital e diversificam suas dependências, incluindo a chinesa, sem romper com o neoliberalismo.
63. Essa noção de “soberania” que vem sendo propagada na maioria das vezes reflete uma defesa da continuidade da globalização neoliberal, visível não só no Brasil, mas nas falas de setores da “esquerda” na América Latina e mundo. Aqueles que criticavam o “globalismo” defendem um tipo de “soberania” que sustenta o livre mercado neoliberal global, ou seja, o mesmo “globalismo”. As políticas protecionistas de Trump, que tentam limitar a globalização imperialista (que agora prejudicam os EUA), exigem uma unidade para combater intervenções dos EUA, mas isso não resolve problemas estruturais. E não pode ser um combate ao protecionismo em geral (pois o protecionismo é um recurso legítimo dos países dependentes) e uma defesa do livre mercado neoliberal da OMC.
64. A esquerda deve aprofundar seu discurso, abordando questões de soberania nacional, por exemplo, por meio da nacionalização de recursos e reestatização de empresas. A luta anti-imperialista deve ser central, buscando resgatar símbolos nacionais e ir além da defesa do livre mercado. Sem mudanças estruturais, a continuidade do neoliberalismo pode favorecer a extrema-direita e a desigualdade na América Latina e o mundo. É vital lutar por projetos populares, anti-imperialistas e ecossocialistas que transcendam a subsoberania e respondam não somente as agressões imediatas, mas a dependência estrutural e ao imperialismo. Por outro lado, a ênfase das agressões militares atuais do imperialismo reforçam a lembrança de que não é possível a um governo que se pretenda anti-imperialista e, principalmente, que tenha o objetivo de transição ao socialismo, sobreviver sem construir uma forte defesa militar.
A Disputa Geopolítica entre a vertente imperialista do governo Trump 2 e a China
65. A derrota de Biden/Harris (Partido Democrata) implicou o retorno da política de Trump 1. Porém, numa situação mais complicada, por causa do avanço permanente da China em todos os campos. O seu retorno comprovou os impasses atuais da crise estrutural do capitalismo e da disputa interimperialista, e como isso se manifesta nos EUA (internamente e em sua política externa). Porém, além de manter as medidas da administração Biden, Trump está endurecendo o jogo e provocando mais conflitos com velhos aliados imperialistas.
66. Trump e Biden representam duas vertentes do imperialismo estadunidense. Duas estratégias do mesmo imperialismo. E, por outro lado, é um dos dois blocos principais da fase do imperialismo global, em contraposição ao bloco liderado por China e Rússia. As políticas de Trump têm, grosso modo, um alvo interno e outro externo. O imperialismo tem, por sua natureza, uma tendência de difusão econômica e política extranacional e, quando necessário, com agressões militares. Portanto, não há imperialismo isolacionista.
67. Trump fala e age contraditoriamente, blefa e faz confusões, mas suas políticas interna e externa se apresentaram mutuamente articuladas. Internamente, ele visava internalizar capitais e inovação em ciência e tecnologia com fins industriais. Facilitar a destruição ambiental para garantir a acumulação de capitais. Melhorar os empregos e estimular o mercado interno e o PIB e, com isso, tentar manter sua base de apoio entre os trabalhadores. Expulsar os imigrantes considerados, por ele e o Partido Republicano, indesejáveis. Aprofundar o autoritarismo: por um lado, centralizando mais o poder presidencial que detém e, por outro, endurecendo a repressão a quem ele considera inimigo interno. Paralelamente, desenvolve ações para robustecer a cultura de direita dentro do estado e na sociedade civil, fortalecendo esquemas e comportamentos conservadores (nos EUA e no exterior). No seu conjunto, é uma política de características neofascistas.
68. Na política externa, a vertente trumpista do imperialismo pretendia garantir um dólar forte e manter a China como principal inimigo. Tentou alguma mediação com a Rússia, para buscar isolar a China, mas chegou tarde. Os acordos China-Rússia são muito profundos e de médio e longo prazos. Por mais que Trump e Putin tenham aproximações ideológicas – pois ambos são parte de um campo da direita autoritária mundial marcada pelo conservadorismo cultural – Trump pode não conseguir eleger seu sucessor para presidente estadunidense e a política externa sofrer mudanças. Isso porque nos detalhes das linhas imperialistas dos EUA não há uma “política de estado”. Putin não se afastaria de uma relação mais segura com a China para se aliar a Trump (com sua possível provisoriedade) e sua ação ziguezagueante, como temos visto.
69. Com a implementação das políticas protecionistas dos EUA, principalmente as taxações (tarifaços), a consequência esperada seria o aumento dos atritos com antigos parceiros imperialistas, ou seja, os países europeus e o Japão, além de vizinhos como o Canadá e o México. A política externa visa aprofundar o poder de influência o mais diretamente possível nos territórios mais próximos e relativamente mais frágeis, como o Ártico, a Groelândia e o Panamá (especialmente o canal interoceânico), a Venezuela e Cuba (que tem uma histórica resistência, mas está muito abalada econômica e socialmente, principalmente devido aos bloqueios dos EUA). Ataca o Irã e a Palestina e volta a financiar a Ucrânia. Porém, não demonstra força para novas invasões com ocupações militares diretas.
70. Trump pretendia reduzir custos estatais (materiais e políticos) no resto do mundo onde não houvesse contrapartida mais imediata. Mas continuou a fazer isso, pois é a lógica do imperialismo estadunidense leva às agressões quando é necessário para afirmar os interesses geopolíticos do estado e das suas empresas monopolistas, e dos estados aliados, como Israel. Ao que se soma o perfil prepotente de Trump. Por tudo isso, ele não está conseguindo atender suas promessas eleitorais de acabar com as guerras em curtíssimo prazo.
71. Como vimos, uma questão central na sua política econômica de forte repercussão internacional são as medidas protecionistas e a busca de facilitar a importação de capitais (que não sejam “inimigos”), para estimular sua economia interna. Nessa perspectiva é que podemos entender o rompimento de acordos e tratados, em áreas que ele considera custosas ou ideologicamente negativas. Como a COP, a OMS e outros órgãos da ONU, cortando recursos de outras, como a OTAN, o que está provocando maiores despesas militares dos países europeus, que já estavam vivendo apertos orçamentários. Porém, devido seus zigue-zagues e blefes, não é fácil saber até onde ele vai levar cada ameaça específica nem o enfrentamento interimperialista geral.
72. Para o conjunto da obra, Trump tem o apoio dos donos das Big Techs que, além do poder econômico, têm alta capacidade de manipulação das informações. E, dentro do estado, possui a maioria da Suprema Corte e a maioria simples no Congresso (Senado e Câmara). Que, mesmo assim, não tem aprovado todas suas medidas e é insuficiente para mudanças na Constituição.
73. Nesse quadro, está sendo difícil as coisas “darem certo” para Trump e os EUA. Suas ações estão gerando resistências em movimentos sociais populares internos e externos aos EUA, grandes manifestações de protestos (especialmente contra a política imigratória, em apoio à Palestina e contra as agressões sionistas), atritos com as antigas potências imperialistas aliadas/subalternas, resistências e retaliações de países prejudicados por suas sanções “econômicas. E uma desmoralização pessoal e do chamado “modo de vida americano”.
74. O dólar sofreu uma desvalorização (mesmo que ainda pequena) e as reservas dos outros países no Tesouro dos EUA estão diminuindo. Trump tem enfrentado dificuldades dentro do aparelho de Estado dos EUA, tanto civil como militar. Está gerando atritos com a elite política e com frações das classes dominantes e da classe média. Tende a faltar mão de obra devido à repressão aos imigrantes e pode haver pressões de aumento salarial.
75. A China tem respondido duramente aos ataques tarifários e sanções de Trump, fazendo represálias tarifárias e suspendendo exportações chinesas de minérios essenciais e peças necessárias para o funcionamento da cadeia produtiva interna dos EUA (e Trump não conseguiu manter uma agressão econômica sistemática). Mas sempre buscando negociações e acordos. Isso mostra a dificuldade dos EUA e da China de romperem com a lógica globalizante do imperialismo. Essa lógica já teve os EUA como seu principal defensor.
75. Mas, o contexto acaba abrindo espaços para as empresas capitalistas chinesas ampliarem a presença em diversos países, de todos os continentes, no modo de imperialismo que oferece trocas, lucros e vantagens para as frações burguesas desses países.
76. Ao mesmo tempo, a China aprofunda a dependência desses países em relação ao seu capital e fortalece as burguesias e elites associadas nacionais dependentes. Mas, embora busque garantir seus interesses nacionais, abstém-se de demonstrar solidariedade efetiva com os povos e países atacados pelo imperialismo estadunidense. É o principal parceiro econômico do Irã e o segundo maior parceiro econômico de Israel, sendo o maior exportador de produtos para o estado sionista (comércio que cresceu, ano a ano durante o genocídio – de 2022 a 2026). Consegue ser, ao mesmo tempo, o maior parceiro comercial tanto da Ucrânia quanto da Rússia. Não vai além de declarações formais na maioria dos casos e deixa cada país à própria sorte, como aconteceu com a Venezuela.
77. Já Trump não está conseguindo vitórias estratégicas em seu principal objetivo (enfrentar a China). Está sendo obrigado a recuar e mediar muitas de suas decisões e discursos; está atolado no Irã; perde apoio popular nos EUA e no mundo; corre grande risco de perder as eleições parlamentares de 2026 e as presidenciais de 2028 nos EUA.
Viva a Resistência Popular!
78. Apesar do clima negativo diante da ofensiva das extremas-direitas e da predominância de governos das direitas em geral e do social-liberalismo, em todos os continentes o povo trabalhador e oprimido continua resistindo aos ataques e a todas as formas de opressão. Essas lutas acontecem através de organizações já tradicionais como os partidos e os sindicatos, via mobilizações e greves, mas também por novos meios, como fazem os trabalhadores por aplicativos, as lutas da juventude, dos povos indígenas, das mulheres, do antirracismo, da comunidade LGBTQIA+, dos imigrantes, dos camponeses e quilombolas, assim como vários tipos e formas de luta ambientalista.
79. Na Europa Ocidental ou Oriental, na América Latina, nos EUA, na China, na Índia, em outros países da Ásia em geral, na África e no chamado Oriente Médio, especialmente a resistência palestina, foram muito importantes os pequenos protestos e lutas dos trabalhadores e oprimidos. Ocorreram grandes mobilizações de combate ao sionismo genocida, que massacra os palestinos, aos ataques ao Irã e ao neofascismo e sua agressão a outros povos e países, assim como a luta contra a guerra por procuração interimperialista entre Rússia e Ucrânia.
80. Internacionalmente, a resistência popular continua em seus movimentos pendulares entre momentos de maiores e menores mobilizações. Porém, em termos mais recentes, foi muito importante o desenvolvimento de grandes mobilizações contra o genocídio sionista na Palestina, em todos os continentes, especialmente na Europa e nos EUA, e o papel cumprido pelas Flotilhas de solidariedade à Palestina e a Cuba. Essas grandes mobilizações pressionaram muitos governos europeus a reconhecerem o direito a um Estado Palestino (mesmo restrito à política dos dois Estados) e uma trégua muito precária em Gaza, apesar de ainda ser insuficiente, instável e que permite Israel continuar o genocídio ao povo palestino. Também foram de grande expressão as manifestações e lutas de resistência às políticas reacionárias de Donald Trump, seja dentro dos EUA, seja em outras partes do mundo. São exemplos de solidariedade internacionalista há muito tempo não vistas. Passos importantes como exemplo para a resistência popular internacional.
81. Enfim, todo dia é dia de luta em algum lugar de todos os países do mundo. Mas essas lutas ainda são limitadas pela ausência, de modo geral de forças de esquerda revolucionária que tenham base de massas e força para liderar o povo trabalhador. Construir essa vanguarda é uma das tarefas principais para as/os revolucionárias/os de todo o mundo.
Solidariedade internacional e anti-imperialismo
82. Nossa luta internacional é de enfrentamento ao imperialismo como expressão da fase atual do capitalismo, na qual, grosso modo, existem países dos centros imperialistas e os dependentes. Nessa relação, centraremos nosso combate ao imperialismo dos EUA, que continua sendo o principal e mais agressivo centro imperialista, e seus aliados mais diretos. Isso se configura tanto em termos de suas ações no contexto internacional, como nas relações de dependência e intromissão na política brasileira. Nesse quadro, se inserem também potências militares regionais mais agressivas como o estado sionista de Israel.
83. Devemos manter nosso combate aos outros centros históricos do imperialismo localizados na Europa e no Japão, mas sem deixar de esclarecer sobre o caráter capitalista e imperialista que a China vem exercendo no período mais recente. Nota-se esse processo inclusive no caso do Brasil, reproduzindo a dependência, desindustrialização, desnacionalização e privatização de nossa economia e as relações de superexploração do trabalho, destruição ambiental e reforço do poder econômico e político do agronegócio e da mineração. Isso inclui seu principal aliado, que hoje é a Federação Russa.
85. Nessa jornada, cabe às revolucionárias e revolucionários construírem as ferramentas sociais, culturais e político-partidárias necessárias à revolução socialista em cada país e, em nível internacional, articulações e fóruns que permitam interação, intercâmbio político e teórico e ações conjuntas
Nossa luta é anti-imperialista e internacional:
Pela autodeterminação dos Povos!
Palestina Livre! Chega de genocídio patrocinado pelo estado sionista de Israel e pelos EUA! Tirem as garras do Irã e do Oriente Médio.
Fora soldados israelenses criminosos de guerra do Brasil!
Trump, tire as garras de Cuba, da Venezuela e da América Latina!
Por um acordo de paz justo na Ucrânia!
Combater a ação destrutiva do capital, em defesa do meio ambiente e pelo ecossocialismo!
Fortalecer a Resistência Popular contra o capital, o imperialismo e todas as opressões! Trabalhadores, oprimidas e oprimidos de todo o mundo, uni-vos!
Abaixo o Imperialismo e Pelo Socialismo! Ousando Lutar, Venceremos!
CNAPS – Coordenação Nacional da Ação Popular Socialista – APS/PSOL
Abril de 2026









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