Submeter o PSOL ao PT é um erro e esse debate não pode ser tratado como mera engenharia eleitoral. Uma federação com o PT envolve um dilema estratégico profundo: qual é o papel histórico do PSOL na esquerda brasileira?
O PSOL nasceu como crítica à conciliação de classes e ao rebaixamento programático que marcaram a trajetória do PT no governo. Sua fundação não foi um gesto vazio, mas uma afirmação política: a esquerda precisa ter independência para enfrentar o capital financeiro, o agronegócio predatório, a lógica extrativista e os limites estruturais do chamado “governismo responsável”. Se essa origem é esquecida, o partido perde seu sentido.
Uma federação partidária não é uma aliança circunstancial, é um compromisso que dura pelo menos 4 anos e envolve direção conjunta e programa comum. Federar com o PT, cuja estrutura, recursos e capilaridade são muito superiores, é caminhar para se submeter à hegemonia petista. O resultado seria, não uma síntese programática avançada, mas a diluição do PSOL em um projeto já consolidado e marcado pelo neo-desenvolvimentismo, pela busca permanente de estabilidade institucional e pela conciliação como método.
A extrema direita não será derrotada por coalizões amplas e discursos moderados. Ela se alimenta justamente da frustração popular com promessas que não alteram as estruturas. Se a resposta da esquerda for o “melhorismo” capitalista e a gestão “responsável” do mesmo modelo, só que menos brutal, ela preserva o terreno onde o autoritarismo cresce.
O PSOL precisa disputar a sociedade a partir de outro horizonte: radicalização democrática, ruptura com a lógica de austeridade, enfrentamento real ao poder econômico, transição ecológica estruturante, fortalecimento do poder popular. Isso exige independência política. Exige capacidade de tensionar governos, inclusive progressistas, quando recuam diante dos interesses do mercado. Exige atuar dentro e fora da institucionalidade, articulando parlamento, movimentos sociais e organização de base. A luta contra a privatização dos rios, que terminou com uma vitória dos povos indígenas, é um exemplo disso.
Ao se federar ao PT, o PSOL corre o risco de se converter em ala esquerda de um projeto que já tem seus limites definidos. A crítica interna se enfraqueceria. A capacidade de apresentar alternativa estratégica diminuiria. E o eleitorado que busca no PSOL uma posição mais consequente, poderia simplesmente se desmobilizar.
Guilherme Boulos, que levou a público esse debate, é um quadro partidário importante e tem peso nessa discussão, mas parece estar colocando suas aspirações pessoais (quer ser o herdeiro político de Lula) acima do projeto histórico coletivo que é o PSOL.
A maioria da militância do PSOL é contra essa proposta. O PSOL precisa ser um instrumento de transformação estrutural e não parte estabilizadora de um campo já hegemonizado pelo PT e que tem como líder maior, Luiz Inácio Lula da Silva.
A unidade contra a extrema direita é necessária. Mas unidade não pode significar subordinação. A esquerda precisa de coragem estratégica. Se o PSOL abdicar de sua autonomia e embarcar nessa proposta petista, pode vir a ter uma redução de sua representação parlamentar, como aconteceu com o PV e o PCdoB, ao integrarem a federação dirigida pelo PT. Além disso,o PSOL é um partido em crescimento. Já em 2022 conseguimos votos necessários para superar a cláusula de barreira prevista tanto para 2026 quanto para 2030.
Enfrentar a extrema direita exige mais que alianças defensivas. Exige projeto, confronto programático e capacidade de mobilização social. O PSOL nasceu para isso. A pergunta é se terá disposição de sustentar essa tarefa sem sucumbir à lógica do transformismo.









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