Nota sobre a permanência da Revolução Solidária no PSOL
APS, Alicerce, Centelhas, Ecossocialistas e LSR
- O mês de março de 2026 foi marcado por importante debate acerca do futuro do PSOL. A corrente Revolução Solidária, cuja principal liderança é Guilherme Boulos, propôs que o PSOL se integrasse à federação Brasil da Esperança, liderada pelo Partido dos Trabalhadores (PT).
- Essa proposta atrelaria totalmente o PSOL ao PT e obrigaria que o partido apoiasse candidaturas do “Centrão”, nos casos em que a federação Brasil da Esperança assim o decidisse. Além de fragilizar a capacidade que o partido tem de gerar novas lideranças e renovar quadros, já que o partido se veria obrigado a escolher só suas candidaturas mais competitivas numa federação com menos vagas disponíveis.
- Às vésperas da última janela partidária para as eleições de 2026, o PSOL foi exposto publicamente. Tanto em debates nas redes sociais como também na grande imprensa, quando a Revolução Solidária publicou artigo assinado por alguns parlamentares na Folha de São Paulo.
- Nesse cenário, nos somamos aos esforços de defesa do PSOL e da sua independência política, compondo um movimento que expressou mais de 75% do partido para derrotar a proposta de federação com o PT. Essa movimentação unitária garantiu que a grande maioria do partido rejeitasse a proposta.
- Depois do DNPSOL que rejeitou a federação com o PT, muitas movimentações ocorreram. A filiação democrática de Jones Manoel no PSOL, a confirmação da filiação de Manuela D´Avila, a possível filiação de Luizianne Lins e a integração de André Janones à Rede (partido com o qual o PSOL compõe federação), filiação de novas lideranças e grupos regionais etc.
- O possível deslocamento da Revolução Solidária e seus parlamentares ou pré-candidatos poderia impactar no objetivo do PSOL de superar a cláusula de barreira, porém a federação PSOL-Rede teria plenas condições de absorver o impacto e se reorganizar para superá-la. Essa reorganização começou no momento imediatamente posterior ao DNPSOL.
Revolução Solidária quer transformar derrota em altruísmo
- Na última semana a Revolução Solidária anunciou que permanecerá no PSOL nas eleições de 2026. Afirmam que fazem isso em solidariedade ao PSOL, pois sem suas candidaturas o partido não alcançará a cláusula de barreira, o que não procede inclusive analisando os dados das eleições de 2022.
- A verdade é que mudar de partido às vésperas do processo eleitoral e sem preparação prévia colocaria em risco não o PSOL – mesmo com as dificuldades – mas sim os mandatos e as pretensões eleitorais da própria Revolução Solidária.
- A movimentação atabalhoada de Boulos e da Revolução Solidária os fragilizou politicamente. Sofreram uma fragorosa derrota no PSOL, e a tendência principal seria uma saída parcial, desorganizada e muito fragmentada, o que em alguma medida já ocorreu. Ingressariam no PT demonstrando fraqueza e não força.
- Além disso, a federação liderada pelo PT (Brasil da Esperança) tem suas questões internas para compor listas estaduais e gerenciar mais um setor tem suas complexidades, o que agravaria ainda mais as dificuldades para as candidaturas da Revolução Solidária.
- Muito provavelmente Lula e seu entorno consideram também que movimentações desse tipo podem dificultar sua tática de reeleição, afastando eleitores mais fluídos politicamente ao trazer para perto de si pautas caras para o PSOL como a luta contra a transfobia, a defesa da legalização do aborto e do meio ambiente. É sabido por todos e todas o quanto Lula e o PT, nos momentos eleitorais e mesmo depois deles, evitam assumir compromissos sólidos e duradouros com determinadas pautas que envolvem os direitos reprodutivos das mulheres e mesmo algumas políticas associadas à agenda dos movimentos LGBTTQIA+.
- Esse conjunto de dificuldades é o motivo real da permanência da Revolução Solidária para disputar as eleições de 2026, diferente do suposto altruísmo expressado na nota lançada e na entrevista de Boulos ao UOL.
O movimento da Revolução Solidária se subordina à Lula e à CNB-PT
- O movimento desenvolvido por Guilherme Boulos e a Revolução Solidária significa uma importante mudança de orientação política e programática. Lula e o PT – especialmente seu campo majoritário hoje denominado Construindo um Novo Brasil (CNB) – transformaram-se na “esquerda da ordem”, reforçando a hegemonia burguesa e a ordem social capitalista em sua fase neoliberal.
- O máximo que fazem nesse quadro é desenvolver políticas voltadas para amenizar os efeitos da crise sobre as condições de vida do povo trabalhador, porém sem rupturas imediatas ou futuras com estruturas da ordem capitalista brasileira marcada por profundas desigualdades sociais, concentração de renda e riqueza, autoritarismo político e destruição ambiental. Atualmente, até as políticas timidamente redistributivas estão muito mais limitadas depois do golpe institucional de 2016 e das mudanças regressivas dos governos Temer e Bolsonaro, não revertidas pelo atual governo Lula.
- Inserir o PSOL na federação liderada pelo PT significaria submeter o PSOL à estratégia de Lula e da maioria do PT. Seria a liquidação de uma esquerda independente cujo principal instrumento partidário hoje é o PSOL.
- Pelo teor da nota, a Revolução Solidária quer realizar esta movimentação para a CNB/PT em melhores condições, evitando perdas de mandatos, de lideranças e até mesmo de bases sociais. Na prática, assumem que estão de passagem pelo PSOL em direção ao PT e querem, depois de cumprir seus próprios objetivos, melhorar suas condições de deslocamento.
- É preciso defender o PSOL como instrumento político-partidário independente. Nosso compromisso é envidar todos os esforços necessários para superar a cláusula de barreira. Ao mesmo tempo, construir um partido vivo inserido nas lutas de nossa classe e de todos os setores explorados e oprimidos historicamente. O partido não deve renunciar ao acúmulo, com acertos e erros, que o trouxe até aqui e ao saldo do resultado das eleições de 2026.
- Esse debate não acaba com a definição eleitoral da Revolução Solidária. Os diversos setores do partido que afirmaram a independência do PSOL devem continuar os esforços conjuntos para manter a integridade do PSOL, fortalecendo suas instâncias, o debate democrático e estabelecendo critérios políticos equilibrados na organização das eleições de 2026.










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